O microcrédito em Portugal - Eles fugiram à pobreza

Novembro 22, 2007 at 2:10 pm | In ajuda, banca, desigualdade, economia, finanças, globalização, injustiça, lucro, microcrédito, sociedade | No Comments
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Pedro Almeida Vieira
In: Notícias Sábado (13 Nov 2007)

Eles fugiram à pobreza

O microcrédito chegou a Portugal há oito anos pela mão da Associação Nacional de Direito ao Crédito e já ajudou centenas de pessoas a lançar-se em pequenos negócios. A NS’ conta-lhe quatro casos com final feliz

Manuel de Almeida
49 anos, barbeiro em Frazão (Paços de Ferreira)
Empréstimo concedido: 5000 euros, aplicados em material da barbearia
Rendimento anterior: 0 euros
Rendimento actual: cerca de 750 euros

O ar da liberdade que respirou a 12 de Agosto de 2006, quando lhe abriram as portas do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, deve ter-lhe sabido bem. Mas Manuel de Almeida tinha consciência de que muitas nuvens negras pairavam no seu horizonte. Ter 48 anos, depois de passados 12 na prisão, não lhe augurava um futuro muito promissor. Da prisão trouxera, porém, um sonho de adoles¬cente: ser barbeiro. “Foi o primeiro emprego que tive na minha aldeia, em Santa Maria de Cárquere, Resende, quando tinha 16 anos”, recorda.

No entanto, mesmo quando se paga a factura de erros do passado, o recibo entregue não abre portas, pelo contrário. “Durante cerca de um ano, enquanto ainda estava preso, fui falando às doutoras do Instituto de Reinserção Social sobre este meu projecto, mas via o tempo a passar e não me ajudaram em nada”, conta. “Só me deram 100 euros quando saí da prisão e tive de me fazer à vida.” Para sua sorte, uma pessoa amiga – que ele carinhosamente trata por D. Rosinha – deu-lhe apoio e informações para conseguir montar a sua barbearia. A tarefa não foi nada fácil. “Da primeira vez que me dirigi a um banco, logo que souberam que era um ex-presidiário, não me deram esperanças de crédito.” D. Rosinha intercedeu e ele acabou por ser recebido pelo banco. Contudo, os juros eram proibitivos. Foi então que surgiu a ideia de recorrer ao microcrédito. “A D. Rosinha pôs-me em contacto com a Associação Nacional de Direito ao Crédito e foi tudo muito rápido.” Recebeu um empréstimo de cinco mil euros, mais uma pequena ajuda de um familiar de Resende e montou o negócio em Frazão, vila no concelho de Paços de Ferreira. “Com esse dinheiro comprei cadeiras, tesouras, secadores e rampas de lavagem”, diz. A primeira tosquiadela deu-a menos de duas semanas após sair da prisão.

O negócio corre de vento em popa. Os fregueses não param de aumentar, sobretudo ao final das tardes e ao sábado. Embora com variações, Manuel de Almeida consegue ganhar cerca de 750 euros por mês, o que lhe permite pensar em prescindir, a breve prazo, de um ‘part-time’ num restaurante onde recebe 200 euros mensais. “A recepção das pessoas, mesmo sabendo o que me aconteceu, tem sido fantástica.” Para essa integração ajudou também a sua actual companheira, natural de Frazão. Conheceram-se na prisão, pois ela trabalha para uma empresa de ‘catering’ que fornece as refeições ao presídio. Mas foi com o seu trabalho que Manuel de Almeida obteve a maior vitória: derrotou a desconfiança dos seus “sogros”, que de início não viram com bons olhos o relacionamento. “Ofereceram-nos agora uma casa, que irei remodelar e vou lá instalar a nova barbearia”, adianta. “E se calhar vou ter de meter um empregado.”

RAFAEL MACHADO
29 anos, alpinista (Lisboa)
Empréstimo concedido: 5000 euros, aplicados para o capital social da empresa unipessoal
Rendimento anterior: 55 euros por dia
Rendimento actual: 250 euros por dia

A vida é feita de altos e baixos. E a vida de Rafael Machado – ou simplesmente Rafa, para os amigos – assim foi moldada. Diz que vive “um bocado assombrado pelo passado”, um passado que não quer recordar. Certo é que agora, aos 29 anos, Rafa continua aos altos e baixos, com a vida presa por um fio, literalmente: criou uma empresa unipessoal para limpar vidros em arranha-céus ou executar trabalhos de parede de difícil acesso. Apenas usando uma corda, presa em local seguro, e um arnês, sem qualquer rede em baixo. Assim, consegue viver fazendo o que mais gosta.

Embora gostasse de fazer alpinismo desde novo – “para curar as vertigens…” –, foi em Inglaterra, no início desta década, que se aperfeiçoou com um curso técnico de desportos radicais. Depois de abandonar o trabalho de serralheiro, acabou por servir de instrutor em acampamentos de jovens problemáticos britânicos apoiados pelo Prince’s Trust, organismo patrocinado pelo príncipe Carlos. Gostou da experiência, mas não da postura dos ingleses e regressou às origens há cerca de quatro anos.

Em Portugal, a escolha natural foi a construção civil, aplicando os seus conhecimentos de alpinismo para fazer algo que poucos sabem ou se atrevem. Porém, o seu espírito rebelde não poderia pactuar durante muito tempo com um trabalho dependente e mal remunerado. Por um dia de trabalho preso a uma corda pagavam-lhe 55 euros, muito menos do que a um pedreiro. Rafa começou a magicar a emancipação; afinal, bastava ter uma corda, um arnês e força de vontade. Isso ele tinha, mas não o dinheiro para criar a empresa, nem tão-pouco bens para conseguir um empréstimo bancário sem juros elevados. Recorreu assim ao microcrédito, através da Associação Nacional de Direito ao Crédito, para constituir a empresa unipessoal.

Agora, trabalho nunca lhe falta, porque consegue fazer preços mais atractivos e “trabalha melhor e mais rápido do que as empresas da especialidade”. Percorreu o País e já esteve em Espanha. Hoje, sente-se um “médio-burguês”, tem “dinheiro suficiente para viver, andar de moto e carro”. E outras vantagens suplementares: “Posso escolher os meus clientes, trabalhar ao meu ritmo e sinto uma grande paz de espírito enquanto estou pendurado.”

E o medo das alturas, o medo de se estatelar? Não tem, assegura. O sorriso estampado no rosto confirma isso mesmo, enquanto o vemos a trabalhar preso por uma corda a 60 metros de altura em Arruda, perto de Vila Franca de Xira.

VIRGOLINA SILVA
61 anos, vendedora de queijos (Torres Vedras)
Empréstimo concedido: 5000 euros, aplicados numa câmara frigorífica
Rendimento anterior: 0 euros
Rendimento actual: cerca de 400 euros

Durante cerca de duas décadas, Virgolina Santos trabalhou como auxiliar médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, criou dois filhos e construiu uma vivenda com o marido. Uma vida sem sobressaltos. Um dos filhos, agora com 38 anos, meteu-se a fazer candeeiros, mesas e cadeiras em ferro forjado. O negócio corria bem, tanto que Virgolina Santos abandonou a função pública para ajudar o filho. Mas a globalização trocou-lhes as voltas. “Com o IKEA e as lojas dos chineses, as vendas baixaram, quase deixou de vender”, diz. Para agravar o cenário, o marido sofreu um acidente vascular cerebral no início deste ano, que o deixou inactivo e com uma magra reforma de 400 euros. Com 61 anos, a quatro da reforma, não podia estar parada à espera que a pobreza e o desespero abraçassem a família.

Virgolina Santos decidiu montar o seu próprio negócio, escolhendo a venda de queijos, já que tinha alguns contactos nessa área. Mas o dinheiro não chegava para tudo e os bancos não estavam muito interessados em emprestar dinheiro a quem, em troca, lhes dava poucas garantias. Ou então propunham-lhe juros altíssimos. “Não tinha qualquer possibilidade.”

Foi então que viu um programa na televisão sobre o microcredito. Em pouco tempo, com a ajuda da Associação Nacional de Direito ao Crédito, conseguiu um empréstimo de cinco mil euros, o suficiente para comprar a câmara frigorífica para a carrinha que já tinha. “Forneço queijos de Nisa e da Lactimonte – uma queijaria na serra de Montejunto –, sobretudo para lojas e restaurantes, desde Caldas da Rainha até ao Bombarral.” O negócio não anda fácil, mas já tem dezenas de clientes e um dos filhos ajuda-a em alguns dias. Tira por mês pouco mais do que o ordenado mínimo, mas não se lhe ouve um lamento. “Sem o microcredito não sei o que seria de mim. Agora estou muito mais aliviada, até porque sempre gostei muito de vender.”

OLGA ONYSHCHUK E IRYNA ILASH
45 e 39 anos, loja de venda e aluguer de vestuário de cerimónia (Lisboa)
Empréstimo concedido: 5000 euros, aplicados na compra de roupa
Rendimento anterior: 700 euros (como empregadas de limpeza e de restaurante)
Rendimento actual: 700 euros (como proprietárias da loja)

O desmembramento da União Soviética, no final de 1991, foi um terramoto na vida de Olga e de Iryna, duas irmãs que então viviam na cidade ucraniana de Ternopil. Tal como para muitos dos seus compatriotas, a liberdade veio com um “brinde” malfadado: a instabilidade económica e social que não poupou ninguém, mesmo quem tinha formação superior e empregos estáveis. Ambas ficaram sem trabalho. Olga, com um curso de Economia, trabalhava numa empresa de confecções, enquanto Iryna chefiava um laboratório local de uma multinacional de detergentes, por via da sua licenciatura em Engenharia Química.

A emigração foi a solução. Vieram para Portugal porque na Ucrânia de então julgava-se que todos os países fora da Cortina de Ferro eram iguais. Como os Estados Unidos recusaram o visto ao marido de Olga, o casal optou por Portugal, onde entrou de forma ilegal em 1999. “Pensávamos que Portugal e os Estados Unidos tinham o mesmo grau de desenvolvimento”, diz Olga.

Chegados no pós-Expo’98, não tiveram dificuldade em encontrar emprego, mas em trabalhos não especializados. O marido de Olga, também com curso superior, ficou numa empresa de areias; ela em limpezas. Iryna juntar-se-ia à irmã alguns anos mais tarde, com o marido – entretanto falecido –, acabando também nas limpezas.

Durante os primeiros anos, antes da legalização, conseguiram sobreviver com dificuldades e muitas saudades das filhas e de outros familiares que deixaram na Ucrânia. O português foi aprendido com muita abnegação. “Fazíamos os nossos próprios dicionários”, recorda Olga. Os trabalhos que conseguiram eram sempre para limpezas e restaurantes.

Não se deram por vencidas e viraram-se para um projecto implementado em ‘part-time’ na Ucrânia: uma loja especializada em aluguer de vestidos de noivas e fatos de cerimónia para homem. Há um ano, as duas irmãs tentaram a sorte com uma pequena loja na Rua do Arco do Carvalhão, em Lisboa, baptizando-a de Ilon – que surgiu da junção da primeira sílaba dos seus apelidos. Mas o dinheiro não era muito e as despesas elevadas. “Acabámos por pedir um microcrédito de cinco mil euros que permitiu aumentar a nossa oferta”, explica Olga.

Com o empréstimo, passaram de apenas 20 peças para 35 ’smokings’, 50 fraques e 30 vestidos. E apostaram também na divulgação através da Internet, mostrando assim as vantagens económicas de alugar um vestido de noiva ou um fato de cerimónia para homens. Neste último caso, o negócio corre bem. “Grande parte dos nossos clientes são estrangeiros que vêm a Lisboa e optam por não trazer a roupa do seu país, embora já comecem também a aparecer alguns portugueses, que se tornam clientes habituais.” Quanto aos vestidos de noiva, são quase só estrangeiras que optam por esta solução, muito mais atractiva: o aluguer custa apenas 150 euros. Os lucros ainda não são muito significativos – ambas dizem ganhar cerca de 700 euros por mês, com variações –, mas o negócio fez-lhes recuperar a auto-estima. Não é difícil de imaginar as razões.

Segue: O microcrédito em Portugal

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