Jorge

Outubro 27, 2007 at 1:04 pm | In crianças e pobreza, desespero, desigualdade, exploração, injustiça, opressão, pobreza, sociedade | Leave a Comment
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Maria João Lopo de Carvalho
Adopta-me
Lisbo, Oficina do Livro, 2004
excerto

 

O Jorge tinha ouvido dizer que eu conseguia resolver casos difíceis. Por isso foi procurar-me à Câmara. Não marcou nada comigo, limitou-se a fintar os seguranças, Subir no elevador e perguntar ao senhor Victor pela doutora Maria João.

Apanhou-me de surpresa. Arrumei os despachos a um canto da secretária, compus os óculos no nariz e fiz o ar mais calmo que consegui.

— Qualquer coisa serve, doutora.

Percebi que vinha procurar emprego. Não trazia currículo nem recomendação de ninguém. Espantou-me.

— Um part-time na Câmara Municipal de Lisboa?

— Qualquer coisa, doutora, para eu continuar os estudos.

O rapaz era alto, muito magro e tinha um ar limpo. Olhos brilhantes, cabelos curtos, vestia-se como todos os jovens de dezoito anos: duas t-shirts, calças impróprias, mochila às costas e uns ténis “imponíveis”.

— E o que é que andas a estudar, Jorge?

— Engenharia civil. Estou no primeiro ano do Técnico mas a Segurança Social retirou o subsídio à minha família.

— Aos teus pais?

— Não, não tenho pais — e suspira. — À minha família.

— Pois, à tua família — não percebi nada, a não ser o constrangimento do rapaz.

— E por isso precisas de trabalhar — também não é grave, pensei, eu própria trabalhei enquanto estava na faculdade. Por necessidade? Não, por gozo.

— Vamos ver. Não é fácil.

— Qualquer coisa. Não tenho medo do trabalho: contínuo, carregador, segurança.

— Não é fácil.

Que não era fácil era o que toda a gente lhe dizia. Até na pastelaria ao lado da casa onde morava, lá para os lados de Pedrouços. A ele, que sabia fazer pão e massa de bolos como ninguém. Não acreditaram nem o deixaram demonstrar. O ar enxuto do rapaz não fazia jus à sua arte. O problema estava em não poder contar tudo, nem querer. Preferia afogar a memória das coisas ou voar sobre elas, se tivesse asas e pudesse desafiar as leis da física. Mas “não é fácil” era o que ouvia por todo o lado. Para ele também não fora fácil ver a mãe fugir da casa onde morava, numa aldeia perto de Tavira, e as duas irmãs ainda de colo serem retiradas ao pai e levadas para uma instituição no Norte. Como também não fora fácil estar ao lado do pai, aos nove anos, todas as noites, para aprender a tarefa de padeiro. Tinha sono e ardiam-lhe os olhos do fumo. Mas o pai gritava-lhe:

— Toca a aprender Jorgito, para te fazeres um homem — isto quando estava bem disposto.

Não foi fácil, também. Mas nessas alturas, quando se tem nove anos, a vida é o que os pais fazem dela, um reflexo tímido de um qualquer sonho. Não foi fácil acordar todos os dias antes do amanhecer. Não foi fácil ser levado na furgoneta do pão e deixado à porta da escola. Tudo o que a menina Paula, professora na escola de Tavira, lhe ensinava era muito mais estimulante do que os tabuleiros com a massa de pão e fermento a encherem-lhe o corpo de farinha. Do que ele mais gostava era de Matemática: “Diz lá a tabuada do sete, Jorge!” E aquilo para ele era uma melodia, muito mais bonita do que multiplicar carcaças no tabuleiro, dividindo as encomendas. A sua caligrafia era também bonita a asseada, como dizia a menina Paula, que cheirava sempre a alfazema. Por isso, não foi fácil para ele levar uma reguada da menina Paula na manhã em que adormeceu a meio de uma cópia. Nessa noite tinha ajudado o pai até às cinco da manhã, porque a pastelaria encomendara o dobro do fornecimento para um baptizado.

O pai dissera-lhe: “Compro-te uns sapatos novos se me ajudares hoje, padeirito.” De forma que lá correu, noite fora, para satisfazer a vontade dos clientes e consolar o seu próprio desejo de uns sapatos novos. Ia receber uns ténis, de marca, com luzes! Não foi fácil, está claro, mas mais difícil ainda pareceu-lhe a reguada da menina Paula, de olhos meigos e voz de canário. “Jorge, não te quero ver a dormir na aula. Dormir é em casa, sabias?” Ele dissera que sim, mas a menina Paula, que tinha um coração grande, resolveu segui-lo depois da escola e descobriu que o Jorge não tinha tempo para dormir. Há professoras que sabem muito pouco sobre os alunos. Fazia os deveres num canto da mesa da padaria e todas as noites ajudava o pai a preparar a massa, a cozer o pão, a aviar as encomendas. Não foi fácil quando, para não desagradar à menina Paula, conseguiu pensar nos sapatos com luzes e no mundo que podia correr com eles, entre a praia e a casa, a casa e o campo de futebol, e fez todas as contas do caderno baterem certas. Nessa mesma noite, de tanto aprender, de tanto sonhar, esqueceu-se de pôr fermento em seis tabuleiros de pão, logo aqueles que se destinavam ao Café Central. Não foi fácil quando o pai descobriu e ficou com os olhos raiados de vermelho. Vermelho-cólera, que, felizmente, é o vermelho mais difícil de encontrar. A ele pareciam-lhe as labaredas quando ardera o pinhal atrás da praia. O pai prometera-lhe que lá para o final do mês viriam os sapatos com luzes. Mas já tinha passado o fim do mês e agora o que iria ser dele, depois de ter estragado a vida ao pai. “Nunca mais vais à escola, meu filho da puta”, gritara-lhe o pai, de cabeça perdida. Não foi fácil quando viu o pai crescer para ele com aquela altura toda, a barba por fazer e os olhos vermelhos de cólera. Foi nessa madrugada que se fez à estrada, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara, e foi dar a casa da menina Paula.

Não foi fácil.

Não é fácil arranjar um part-time, Jorge.

Também não foi nada fácil ir morar com uma família em Lisboa. Chamava-se família de acolhimento e foi a menina Paula que o deixou lá. A menina Paula e uma senhora da Segurança Social que o olhava com o sobrolho carregado e parecia que tinha nojo em tocar-lhe. Nesse ano conseguiu tirar o 5° e o 6° anos de uma assentada. E, como gostava tanto de estudar, no ano seguinte fez o 7°, o 8° e o 9º anos de uma só vez. Nunca mais ouviu falar do pai, nunca mais o foi visitar. Mas conseguiu uns ténis de marca com luzes, e sempre lhe disseram que tinha sido o pai que os mandara.

— Engenharia civil?

— Faltam quatro anos, doutora.

— Não é fácil.

Eu não conhecia o Jorge nem a história do Jorge padeirito. De outra forma ter-me-ia sufocado em escrúpulos neste encontro. Até ser contada, esta era apenas uma memória do Jorge estudante do Técnico, mochila às costas e um fundo de esperança ao canto dos olhos. Como tantas outras.

A directora da escola tem razão. Tenho de aprender a blindar-me.

Isso aprende-se? Onde?

Ainda que eu soubesse… ainda que pudesse… Nunca é fácil darmos assim de caras com a nossa infinita imperfeição. Uma coisa é certa: o padeirito vai continuar a estudar. Nem que eu me vire do avesso.

Fiquei a olhá-lo da janela do meu gabinete. Tinha um passo apressado e seguro.

Confiante.

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