Yunus doa prémio e funda partido

Outubro 30, 2007 at 9:39 am | In ajuda, banca, desigualdade, economia, finanças, globalização, injustiça, pobreza, sociedade | Leave a Comment

Carlos Reis
Além-Mar, Novembro de 2006

O economista bengali Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006, anunciou que vai fazer reverter a favor dos pobres o valor pecuniário do galardão, 1,1 milhões de euros. A verba será repartida por várias iniciativas: «Uma parte permitirá criar um hospital oftalmológico e um projecto de tratamento de águas», disse. Yunus, de 66 anos, fundou no Bangladesh, em 1976, o Grameen Bank. Conhecido como o «banqueiro dos pobres», a sua ambição era ajudar a erradicar a pobreza através do microcrédito: pequenos empréstimos concedidos aos que nunca teriam direito a qualquer forma de crédito, a fim de lhes permitir iniciar pequenos negócios e quebrar o círculo vicioso da miséria; na sua concessão, sempre privilegiou as mulheres, que considera mais empreendedoras e mais fiáveis.

A Fundação Nobel optou por distinguir o economista e o seu Grameen Bank por considerar que o microcrédito é um meio eficaz para quebrar o ciclo da exclusão; e por partir do princípio que «a paz duradoura não pode ser atingida se não se abrir caminho para que uma ampla parte da população saia da pobreza».

Nascido em 1940 em Chittagong, uma região do que era então o leste de Bengala, Muhammad Yunus é o terceiro dos nove filhos de um ourives. Licenciou-se em Economia no seu país e fez o doutoramento nos Estados Unidos, com uma bolsa de estudo. A fome devastadora que atingiu o Bangladesh em 1971, que causou centenas de milhares de mortos, fê-lo perguntar-se se as teorias económicas modernas poderiam assegurar justiça social aos mais pobres. A conclusão: «Enquanto as pessoas morriam de fome nas ruas, eu ensinava economia. Nós, professores universitários, somos inteligentes, mas não sabemos absolutamente nada sobre a pobreza que nos cerca. Decidi então que os próprios pobres seriam meus professores.»

Em 1976, Yunus empresta o equivalente a 27 dólares a quatro dezenas de mulheres da cidade portuária de Chittagong, que deviam dinheiro a agiotas que lhes extorquiam juros elevados. O seu objectivo: convencer o gerente do banco local a conceder crédito a essas mulheres; mas o banco recusou-se a fazê-lo sem garantias, algo que os mais pobres nunca podem dar; e Yunus resolveu mostrar-lhe que a sua política estava errada. O economista funda então o Grameen Bank – grameen significa vila em bengali –, para que as pessoas carenciadas das zonas rurais do Bangladesh também pudessem ter acesso a empréstimos.

Três décadas depois, afirma-se muito feliz por ter fundado o banco, que entretanto cresceu e lançou sementes um pouco por todo o mundo: o «banco dos pobres» tem hoje 6,7 milhões de clientes e, ao contrário da banca tradicional, recupera 99 por cento do crédito concedido, apesar de não exigir garantias; os empréstimos são livres de juros, e já ajudaram a iniciar inúmeras actividades e pequenos projectos, que, somados, constituem um motor de desenvolvimento nas mais diversas zonas.

Por trás da prática económica de Muhammad Yunus está o conceito de «economia solidária», que coloca o ser humano como sujeito e finalidade da actividade económica, em detrimento da acumulação de capital. Sintomaticamente, o homem que tanto faz para ajudar a tirar pessoas da miséria não dá esmolas a mendigos: «Às vezes, sinto-me mal por negar-lhes algo. No entanto, prefiro resolver problemas a dar ajudas que servem para um dia». A sua filosofia: «As pessoas sabem tomar conta de si próprias e não precisam que se derramem lágrimas por elas. São muito capazes.» O «banqueiro dos pobres» pondera agora criar um partido político para concorrer às próximas eleições do Bangladesh previstas para o início de Janeiro.

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