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	<title>Ricos e pobres</title>
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		<title>Ricos e pobres</title>
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		<title>Lixo e Cidadania &#8211; Boaventura Sousa Santos</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Apr 2009 09:43:43 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align:center;">Lixo e Cidadania</h3>
<p style="text-align:justify;">Acabo de participar, como conferencista, no 6° Festival do Lixo e Cidadania realizado em Belo Horizonte, por iniciativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Uma experiência estranha e riquíssima. Estranha, porque juntou o mais desprezível (o lixo) com o mais precioso (a cidadania), num tipo de evento (festival) a que associamos celebração e alegria. Riquíssima, porque aprendi ou reaprendi incomparavelmente mais do que ensinei.</p>
<p style="text-align:justify;">Aprendi que os seres humanos, mesmo os mais excluídos e nas condições mais indignas -aqueles para quem o nosso lixo é um luxo e o endereço é um viaduto ou uma soleira de porta &#8211; não desistem de lutar por uma vida digna, assente na reivindicação de direitos de cidadania que, apesar de impunemente desrespeitados, lhes dão notícia da sua humanidade. São milhares de sombras móveis coladas a carroças desengonçadas que percorrem as cidades, atrapalhando os postais ilustrados e a indústria turística, populações descartáveis apesar de ganharem o seu sustento colectando para reciclagem o que descartamos como papel velho, vidro e plástico usados ou sucata.</p>
<p style="text-align:justify;">Aprendi que muitas das lutas mais exigentes pela inclusão social exigem formas de organização e mobilização autónomas, já que as agendas dos partidos não contemplam as aspirações dos mais excluídos e os sindicatos não reconhecem formas de trabalho que extravasam do modelo do capitalismo industrial. O MNCR agrega hoje centenas de organizações e cooperativas de que são membros cerca de 300 mil catadores. Por via da organização e mobilização ressignificaram a sua auto-estima e identidade, passando de miseráveis comedores de lixo a uma ocupação profissional, a de «catador de material reciclável», reconhecida pelo Código Brasileiro de Ocupações sob o número 5192.</p>
<p style="text-align:justify;">São, pois, recicladores que reciclaram a sua própria vida. Aprendi que a sociedade de consumo em que vivemos &#8211; baseada na incessante fabricação de necessidades que não temos e no endividamento extremo que nos impede de satisfazer as que verdadeiramente temos &#8211; despreza o saber ecológico daqueles que transformam os restos do consumo em consumo sustentável de restos. Calcula-se que o mundo produz anualmente 1,84 biliões de toneladas de lixo por ano, a maior parte dele resíduos sólidos que, por falta de reaproveitamento, poluem a atmosfera e contaminam o solo e as águas subterrâneas. Nem mesmo os movimentos ambientalistas dos países com milhares de catadores de lixo se deram conta destes seus aliados naturais, certamente não pertencentes, como eles, à classe média e muito menos portadores de discursos que escondem com a beleza das palavras a sujidade do mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">Aprendi ainda que há uma alternativa à economia do egoísmo &#8211; que o capitalismo transformou no modo natural de fazer, ter e ser -, a economia do altruísmo, das cooperativas e das organizações económicas populares onde a rentabilidade está ao serviço do bem-estar e se inclui, dentro do tempo de trabalho, o tempo de alfabetização e de formação profissional, a ginástica para aliviar o stress muscular da especialização (separação, triagem e enfardamento de sucata) e a discussão sobre violações de direitos humanos no trabalho e em casa, nomeadamente a discriminação sexual e a violência doméstica.</p>
<p style="text-align:justify;">Neste domínio, há que registar a solidariedade prestada pelos serviços de extensão de universidades públicas que finalmente se deram conta que o seu futuro passa por um novo contrato social, não, como antes, vinculado às elites económicas, mas antes solidário com as classes populares e os cidadãos impotentes para fazer valer os seus direitos ante profissionais ininteligíveis e secretarias labirínticas. Afinal, talvez já soubesse tudo isto. Apenas fiquei a saber melhor que os excluídos não precisam que lhes ensinem o que é uma vida digna. Precisam apenas de aliados que possam dar testemunho deles e, com isso, ampliar a sua voz e a sua luta.</p>
<p style="text-align:right;">Boaventura de Sousa Santos<br />
Visão, Setembro de 2007</p>
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		<title>O microcrédito em Portugal &#8211; Eles fugiram à pobreza</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Nov 2007 14:10:07 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Pedro Almeida Vieira In: Notícias Sábado (13 Nov 2007) Eles fugiram à pobreza O microcrédito chegou a Portugal há oito anos pela mão da Associação Nacional de Direito ao Crédito e já ajudou centenas de pessoas a lançar-se em pequenos negócios. A NS’ conta-lhe quatro casos com final feliz Manuel de Almeida 49 anos, barbeiro [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=47&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pedro Almeida Vieira<br />
In: <em>Notícias Sábado</em> (13 Nov 2007)</p>
<p align="center"><strong>Eles fugiram à pobreza</strong></p>
<p align="justify"><em>O microcrédito chegou a Portugal há oito anos pela mão da Associação Nacional de Direito ao Crédito e já ajudou centenas de pessoas a lançar-se em pequenos negócios. A NS’ conta-lhe quatro casos com final feliz</em></p>
<p><strong>Manuel de Almeida </strong><br />
49 anos, barbeiro em Frazão (Paços de Ferreira)<br />
<strong>Empréstimo concedido:</strong> 5000 euros, aplicados em material da barbearia<br />
<strong>Rendimento anterior:</strong> 0 euros<br />
<strong>Rendimento actual:</strong> cerca de 750 euros</p>
<p align="justify">O ar da liberdade que respirou a 12 de Agosto de 2006, quando lhe abriram as portas do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, deve ter-lhe sabido bem. Mas Manuel de Almeida tinha consciência de que muitas nuvens negras pairavam no seu horizonte. Ter 48 anos, depois de passados 12 na prisão, não lhe augurava um futuro muito promissor. Da prisão trouxera, porém, um sonho de adoles¬cente: ser barbeiro. “Foi o primeiro emprego que tive na minha aldeia, em Santa Maria de Cárquere, Resende, quando tinha 16 anos”, recorda.</p>
<p align="justify">No entanto, mesmo quando se paga a factura de erros do passado, o recibo entregue não abre portas, pelo contrário. “Durante cerca de um ano, enquanto ainda estava preso, fui falando às doutoras do Instituto de Reinserção Social sobre este meu projecto, mas via o tempo a passar e não me ajudaram em nada”, conta. “Só me deram 100 euros quando saí da prisão e tive de me fazer à vida.” Para sua sorte, uma pessoa amiga – que ele carinhosamente trata por D. Rosinha – deu-lhe apoio e informações para conseguir montar a sua barbearia. A tarefa não foi nada fácil. “Da primeira vez que me dirigi a um banco, logo que souberam que era um ex-presidiário, não me deram esperanças de crédito.” D. Rosinha intercedeu e ele acabou por ser recebido pelo banco. Contudo, os juros eram proibitivos. Foi então que surgiu a ideia de recorrer ao microcrédito. “A D. Rosinha pôs-me em contacto com a Associação Nacional de Direito ao Crédito e foi tudo muito rápido.” Recebeu um empréstimo de cinco mil euros, mais uma pequena ajuda de um familiar de Resende e montou o negócio em Frazão, vila no concelho de Paços de Ferreira. “Com esse dinheiro comprei cadeiras, tesouras, secadores e rampas de lavagem”, diz. A primeira tosquiadela deu-a menos de duas semanas após sair da prisão.</p>
<p align="justify">O negócio corre de vento em popa. Os fregueses não param de aumentar, sobretudo ao final das tardes e ao sábado. Embora com variações, Manuel de Almeida consegue ganhar cerca de 750 euros por mês, o que lhe permite pensar em prescindir, a breve prazo, de um &#8216;part-time&#8217; num restaurante onde recebe 200 euros mensais. “A recepção das pessoas, mesmo sabendo o que me aconteceu, tem sido fantástica.” Para essa integração ajudou também a sua actual companheira, natural de Frazão. Conheceram-se na prisão, pois ela trabalha para uma empresa de &#8216;catering&#8217; que fornece as refeições ao presídio. Mas foi com o seu trabalho que Manuel de Almeida obteve a maior vitória: derrotou a desconfiança dos seus “sogros”, que de início não viram com bons olhos o relacionamento. “Ofereceram-nos agora uma casa, que irei remodelar e vou lá instalar a nova barbearia”, adianta. “E se calhar vou ter de meter um empregado.”</p>
<p><strong>RAFAEL MACHADO</strong><br />
29 anos, alpinista (Lisboa)<br />
<strong>Empréstimo concedido:</strong> 5000 euros, aplicados para o capital social da empresa unipessoal<br />
<strong>Rendimento anterior:</strong> 55 euros por dia<br />
<strong>Rendimento actual:</strong> 250 euros por dia</p>
<p align="justify">A vida é feita de altos e baixos. E a vida de Rafael Machado – ou simplesmente Rafa, para os amigos – assim foi moldada. Diz que vive “um bocado assombrado pelo passado”, um passado que não quer recordar. Certo é que agora, aos 29 anos, Rafa continua aos altos e baixos, com a vida presa por um fio, literalmente: criou uma empresa unipessoal para limpar vidros em arranha-céus ou executar trabalhos de parede de difícil acesso. Apenas usando uma corda, presa em local seguro, e um arnês, sem qualquer rede em baixo. Assim, consegue viver fazendo o que mais gosta.</p>
<p align="justify">Embora gostasse de fazer alpinismo desde novo – “para curar as vertigens&#8230;” –, foi em Inglaterra, no início desta década, que se aperfeiçoou com um curso técnico de desportos radicais. Depois de abandonar o trabalho de serralheiro, acabou por servir de instrutor em acampamentos de jovens problemáticos britânicos apoiados pelo Prince&#8217;s Trust, organismo patrocinado pelo príncipe Carlos. Gostou da experiência, mas não da postura dos ingleses e regressou às origens há cerca de quatro anos.</p>
<p align="justify">Em Portugal, a escolha natural foi a construção civil, aplicando os seus conhecimentos de alpinismo para fazer algo que poucos sabem ou se atrevem. Porém, o seu espírito rebelde não poderia pactuar durante muito tempo com um trabalho dependente e mal remunerado. Por um dia de trabalho preso a uma corda pagavam-lhe 55 euros, muito menos do que a um pedreiro. Rafa começou a magicar a emancipação; afinal, bastava ter uma corda, um arnês e força de vontade. Isso ele tinha, mas não o dinheiro para criar a empresa, nem tão-pouco bens para conseguir um empréstimo bancário sem juros elevados. Recorreu assim ao microcrédito, através da Associação Nacional de Direito ao Crédito, para constituir a empresa unipessoal.</p>
<p align="justify">Agora, trabalho nunca lhe falta, porque consegue fazer preços mais atractivos e “trabalha melhor e mais rápido do que as empresas da especialidade”. Percorreu o País e já esteve em Espanha. Hoje, sente-se um “médio-burguês”, tem “dinheiro suficiente para viver, andar de moto e carro”. E outras vantagens suplementares: “Posso escolher os meus clientes, trabalhar ao meu ritmo e sinto uma grande paz de espírito enquanto estou pendurado.”</p>
<p align="justify">E o medo das alturas, o medo de se estatelar? Não tem, assegura. O sorriso estampado no rosto confirma isso mesmo, enquanto o vemos a trabalhar preso por uma corda a 60 metros de altura em Arruda, perto de Vila Franca de Xira.</p>
<p><strong>VIRGOLINA SILVA</strong><br />
61 anos, vendedora de queijos (Torres Vedras)<br />
<strong>Empréstimo concedido:</strong> 5000 euros, aplicados numa câmara frigorífica<br />
<strong>Rendimento anterior:</strong> 0 euros<br />
<strong>Rendimento actual:</strong> cerca de 400 euros</p>
<p align="justify">Durante cerca de duas décadas, Virgolina Santos trabalhou como auxiliar médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, criou dois filhos e construiu uma vivenda com o marido. Uma vida sem sobressaltos. Um dos filhos, agora com 38 anos, meteu-se a fazer candeeiros, mesas e cadeiras em ferro forjado. O negócio corria bem, tanto que Virgolina Santos abandonou a função pública para ajudar o filho. Mas a globalização trocou-lhes as voltas. “Com o IKEA e as lojas dos chineses, as vendas baixaram, quase deixou de vender”, diz. Para agravar o cenário, o marido sofreu um acidente vascular cerebral no início deste ano, que o deixou inactivo e com uma magra reforma de 400 euros. Com 61 anos, a quatro da reforma, não podia estar parada à espera que a pobreza e o desespero abraçassem a família.</p>
<p align="justify">Virgolina Santos decidiu montar o seu próprio negócio, escolhendo a venda de queijos, já que tinha alguns contactos nessa área. Mas o dinheiro não chegava para tudo e os bancos não estavam muito interessados em emprestar dinheiro a quem, em troca, lhes dava poucas garantias. Ou então propunham-lhe juros altíssimos. “Não tinha qualquer possibilidade.”</p>
<p align="justify">Foi então que viu um programa na televisão sobre o microcredito. Em pouco tempo, com a ajuda da Associação Nacional de Direito ao Crédito, conseguiu um empréstimo de cinco mil euros, o suficiente para comprar a câmara frigorífica para a carrinha que já tinha. “Forneço queijos de Nisa e da Lactimonte – uma queijaria na serra de Montejunto –, sobretudo para lojas e restaurantes, desde Caldas da Rainha até ao Bombarral.” O negócio não anda fácil, mas já tem dezenas de clientes e um dos filhos ajuda-a em alguns dias. Tira por mês pouco mais do que o ordenado mínimo, mas não se lhe ouve um lamento. “Sem o microcredito não sei o que seria de mim. Agora estou muito mais aliviada, até porque sempre gostei muito de vender.”</p>
<p><strong>OLGA ONYSHCHUK E IRYNA ILASH</strong><br />
45 e 39 anos, loja de venda e aluguer de vestuário de cerimónia (Lisboa)<br />
<strong>Empréstimo concedido:</strong> 5000 euros, aplicados na compra de roupa<br />
<strong>Rendimento anterior:</strong> 700 euros (como empregadas de limpeza e de restaurante)<br />
<strong>Rendimento actual:</strong> 700 euros (como proprietárias da loja)</p>
<p align="justify">O desmembramento da União Soviética, no final de 1991, foi um terramoto na vida de Olga e de Iryna, duas irmãs que então viviam na cidade ucraniana de Ternopil. Tal como para muitos dos seus compatriotas, a liberdade veio com um “brinde” malfadado: a instabilidade económica e social que não poupou ninguém, mesmo quem tinha formação superior e empregos estáveis. Ambas ficaram sem trabalho. Olga, com um curso de Economia, trabalhava numa empresa de confecções, enquanto Iryna chefiava um laboratório local de uma multinacional de detergentes, por via da sua licenciatura em Engenharia Química.</p>
<p align="justify">A emigração foi a solução. Vieram para Portugal porque na Ucrânia de então julgava-se que todos os países fora da Cortina de Ferro eram iguais. Como os Estados Unidos recusaram o visto ao marido de Olga, o casal optou por Portugal, onde entrou de forma ilegal em 1999. “Pensávamos que Portugal e os Estados Unidos tinham o mesmo grau de desenvolvimento”, diz Olga.</p>
<p align="justify">Chegados no pós-Expo&#8217;98, não tiveram dificuldade em encontrar emprego, mas em trabalhos não especializados. O marido de Olga, também com curso superior, ficou numa empresa de areias; ela em limpezas. Iryna juntar-se-ia à irmã alguns anos mais tarde, com o marido – entretanto falecido –, acabando também nas limpezas.</p>
<p align="justify">Durante os primeiros anos, antes da legalização, conseguiram sobreviver com dificuldades e muitas saudades das filhas e de outros familiares que deixaram na Ucrânia. O português foi aprendido com muita abnegação. “Fazíamos os nossos próprios dicionários”, recorda Olga. Os trabalhos que conseguiram eram sempre para limpezas e restaurantes.</p>
<p align="justify">Não se deram por vencidas e viraram-se para um projecto implementado em &#8216;part-time&#8217; na Ucrânia: uma loja especializada em aluguer de vestidos de noivas e fatos de cerimónia para homem. Há um ano, as duas irmãs tentaram a sorte com uma pequena loja na Rua do Arco do Carvalhão, em Lisboa, baptizando-a de Ilon – que surgiu da junção da primeira sílaba dos seus apelidos. Mas o dinheiro não era muito e as despesas elevadas. “Acabámos por pedir um microcrédito de cinco mil euros que permitiu aumentar a nossa oferta”, explica Olga.</p>
<p align="justify">Com o empréstimo, passaram de apenas 20 peças para 35 &#8216;smokings&#8217;, 50 fraques e 30 vestidos. E apostaram também na divulgação através da Internet, mostrando assim as vantagens económicas de alugar um vestido de noiva ou um fato de cerimónia para homens. Neste último caso, o negócio corre bem. “Grande parte dos nossos clientes são estrangeiros que vêm a Lisboa e optam por não trazer a roupa do seu país, embora já comecem também a aparecer alguns portugueses, que se tornam clientes habituais.” Quanto aos vestidos de noiva, são quase só estrangeiras que optam por esta solução, muito mais atractiva: o aluguer custa apenas 150 euros. Os lucros ainda não são muito significativos – ambas dizem ganhar cerca de 700 euros por mês, com variações –, mas o negócio fez-lhes recuperar a auto-estima. Não é difícil de imaginar as razões.</p>
<p>Segue: <a href="http://ricosepobres.wordpress.com/2007/11/22/o-microcredito-em-portugal/">O microcrédito em Portugal</a></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/47/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/47/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/47/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=47&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O microcrédito em Portugal</title>
		<link>http://ricosepobres.wordpress.com/2007/11/22/o-microcredito-em-portugal/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Nov 2007 14:05:08 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Pedro Almeida Vieira In: Notícias Sábado (13 Nov 2007) Anterior: Eles fugiram à pobreza (testemunhos) 800 projectos aprovados desde 1999 O Instituto Nacional de Estatística (INE), no âmbito do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza, revelou recentemente que um em cada cinco portugueses vivia em risco de pobreza, ou seja, sobrevivia com menos de 360 [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=46&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pedro Almeida Vieira<br />
In: <em>Notícias Sábado</em> (13 Nov 2007)</p>
<p>Anterior: <a href="http://ricosepobres.wordpress.com/2007/11/22/o-microcredito-em-portugal-eles-fugiram-a-pobreza/">Eles fugiram à pobreza (testemunhos)</a></p>
<p align="center"><strong>800 projectos aprovados desde 1999</strong></p>
<p align="justify">O Instituto Nacional de Estatística (INE), no âmbito do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza, revelou recentemente que um em cada cinco portugueses vivia em risco de pobreza, ou seja, sobrevivia com menos de 360 euros por mês provenientes dos seus próprios rendimentos – quase metade (49%) tinha entre os 16 e os 64 anos. O INE alertava também para o facto de, se não existissem apoios estatais (pensões de reforma, subsídios de doença, de desemprego e de inserção social), a população pobre ou em risco de pobreza em Portugal atingiria os 41 %.<br />
Estes valores podem ter muitas leituras, mas mostram sobretudo que o Estado e outras entidades não têm capacidade, por si só, de suprimir a pobreza apenas através de subsídios, tanto mais que não chega para todos. E assim, muitas pessoas mantêm-se ou caem nas redes da pobreza apenas porque não têm posses suficientes, mesmo se existe vontade e projectos em mente. A Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC) tem incidido a sua acção neste grupo de pessoas. Desde finais de 1999 que a sua principal preocupação é encontrar financiamentos bancários para o desenvolvimento de pequenos projectos empresariais, o chamado microcrédito – que, basicamente, consiste em empréstimos de pequeno montante (por regra até sete mil euros) para investimento, em condições de juro bastante favoráveis e destinado a pessoas que, noutras circunstâncias, nem teriam crédito junto da banca.</p>
<p align="justify">“Criámos a associação porque constatámos que existe uma faixa importante da população que pode, por sua iniciativa, sair de situações de dependência ou pobreza, se forem apoiadas numa primeira fase para desenvolver os seus projectos”, refere Manuel Brandão Alves, presidente da ANDC e professor do Instituto Superior de Economia e Gestão. A ANDC tem sido o “intermediário” entre as pessoas e as instituições bancárias – o seu trabalho começa por ser de filtragem e depois de apoio técnico. “Apenas 20% de quem nos contacta acaba por desenvolver os projectos até ao fim”, salienta Brandão Alves. Isto porque a associação apenas acolhe as pessoas que já tenham uma ideia concreta de negócio e exige que não haja por parte do candidato quaisquer infracções com bancos. Depois disto, a ANDC – que recebe apenas uma comparticipação do Estado e não exige que os candidatos sejam seus associados – acompanha as primeiras fases de implementação dos projectos. Com cerca de 800 projectos de microcrédito aprovados desde 1999, abrangendo uma multiplicidade de sectores, somente 18% já não existem, embora o montante do capital total não reembolsado aos bancos se situe apenas em cerca de 10%. “São valores muito bons, se tivermos em conta que 67% das empresas em Portugal acabam por ser encerradas num prazo de cinco anos”, destaca o presidente da ANDC. “Não estamos apenas a apoiar as pessoas, mas também a sociedade, porque muitas estavam a receber subsídios e deixaram de ser um encargo para o Estado, passando a produzir e a pagar impostos.” Mais importante: o sucesso obtido aumenta a auto-estima e tem um efeito mimético junto das comunidades mais desfavorecidas.</p>
<p align="center">* *</p>
<p align="center"><strong>O modelo de Yunus</strong></p>
<p align="justify">O microcredito é já considerado uma das armas mais fortes na luta contra a pobreza e, dessa forma, um dos elos mais importantes para a paz social do mundo. Essa evidência acabou por ficar patente no ano passado com a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Muhammad Yunus e ao Grameen Bank, pelo êxito do microcredito na luta contra a pobreza no Bangladesh. A ideia de generalizar o microcredito surgiu-lhe na década de 70 quando 42 mulheres da vila bengali de Jobra, a quem ele tinha emprestado o equivalente a 27 dólares (19 euros) para montar um negócio autónomo de móveis de bambu, o reembolsaram. Desde aí, o banco fundado por Yunus, sempre dedicado ao microcredito para os desfavorecidos, cresceu e expandiu-se para cerca de 60 países. No final da década de 90 tinha apoiado mais de 2,3 milhões de famílias com empréstimos a totalizarem 3100 milhões de euros.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/46/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/46/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/46/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=46&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Yunus doa prémio e funda partido</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Oct 2007 09:39:45 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[ajuda]]></category>
		<category><![CDATA[banca]]></category>
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		<description><![CDATA[Carlos Reis Além-Mar, Novembro de 2006 O economista bengali Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006, anunciou que vai fazer reverter a favor dos pobres o valor pecuniário do galardão, 1,1 milhões de euros. A verba será repartida por várias iniciativas: «Uma parte permitirá criar um hospital oftalmológico e um projecto de tratamento de águas», [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=45&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carlos Reis<br />
<em>Além-Mar</em>, Novembro de 2006</p>
<p align="justify" style="text-indent:1cm;">O economista bengali Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006, anunciou que vai fazer reverter a favor dos pobres o valor pecuniário do galardão, 1,1 milhões de euros. A verba será repartida por várias iniciativas: «Uma parte permitirá criar um hospital oftalmológico e um projecto de tratamento de águas», disse. Yunus, de 66 anos, fundou no Bangladesh, em 1976, o Grameen Bank. Conhecido como o «banqueiro dos pobres», a sua ambição era ajudar a erradicar a pobreza através do microcrédito: pequenos empréstimos concedidos aos que nunca teriam direito a qualquer forma de crédito, a fim de lhes permitir iniciar pequenos negócios e quebrar o círculo vicioso da miséria; na sua concessão, sempre privilegiou as mulheres, que considera mais empreendedoras e mais fiáveis.</p>
<p align="justify" style="text-indent:1cm;">A Fundação Nobel optou por distinguir o economista e o seu Grameen Bank por considerar que o microcrédito é um meio eficaz para quebrar o ciclo da exclusão; e por partir do princípio que «a paz duradoura não pode ser atingida se não se abrir caminho para que uma ampla parte da população saia da pobreza».</p>
<p align="justify" style="text-indent:1cm;">Nascido em 1940 em Chittagong, uma região do que era então o leste de Bengala, Muhammad Yunus é o terceiro dos nove filhos de um ourives. Licenciou-se em Economia no seu país e fez o doutoramento nos Estados Unidos, com uma bolsa de estudo. A fome devastadora que atingiu o Bangladesh em 1971, que causou centenas de milhares de mortos, fê-lo perguntar-se se as teorias económicas modernas poderiam assegurar justiça social aos mais pobres. A conclusão: «Enquanto as pessoas morriam de fome nas ruas, eu ensinava economia. Nós, professores universitários, somos inteligentes, mas não sabemos absolutamente nada sobre a pobreza que nos cerca. Decidi então que os próprios pobres seriam meus professores.»</p>
<p align="justify" style="text-indent:1cm;">Em 1976, Yunus empresta o equivalente a 27 dólares a quatro dezenas de mulheres da cidade portuária de Chittagong, que deviam dinheiro a agiotas que lhes extorquiam juros elevados. O seu objectivo: convencer o gerente do banco local a conceder crédito a essas mulheres; mas o banco recusou-se a fazê-lo sem garantias, algo que os mais pobres nunca podem dar; e Yunus resolveu mostrar-lhe que a sua política estava errada. O economista funda então o Grameen Bank – <em>grameen</em> significa <em>vila</em> em bengali –, para que as pessoas carenciadas das zonas rurais do Bangladesh também pudessem ter acesso a empréstimos.</p>
<p align="justify" style="text-indent:1cm;">Três décadas depois, afirma-se muito feliz por ter fundado o banco, que entretanto cresceu e lançou sementes um pouco por todo o mundo: o «banco dos pobres» tem hoje 6,7 milhões de clientes e, ao contrário da banca tradicional, recupera 99 por cento do crédito concedido, apesar de não exigir garantias; os empréstimos são livres de juros, e já ajudaram a iniciar inúmeras actividades e pequenos projectos, que, somados, constituem um motor de desenvolvimento nas mais diversas zonas. </p>
<p>Por trás da prática económica de Muhammad Yunus está o conceito de «economia solidária», que coloca o ser humano como sujeito e finalidade da actividade económica, em detrimento da acumulação de capital. Sintomaticamente, o homem que tanto faz para ajudar a tirar pessoas da miséria não dá esmolas a mendigos: «Às vezes, sinto-me mal por negar-lhes algo. No entanto, prefiro resolver problemas a dar ajudas que servem para um dia». A sua filosofia: «As pessoas sabem tomar conta de si próprias e não precisam que se derramem lágrimas por elas. São muito capazes.» O «banqueiro dos pobres» pondera agora criar um partido político para concorrer às próximas eleições do Bangladesh previstas para o início de Janeiro.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/45/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/45/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/45/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=45&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Jorge</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Oct 2007 13:04:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>div. temas</dc:creator>
				<category><![CDATA[crianças e pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[desespero]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[exploração]]></category>
		<category><![CDATA[injustiça]]></category>
		<category><![CDATA[opressão]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[testemunhos]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria João Lopo de Carvalho Adopta-me Lisbo, Oficina do Livro, 2004 excerto &#160; O Jorge tinha ouvido dizer que eu conseguia resolver casos difíceis. Por isso foi procurar-me à Câmara. Não marcou nada comigo, limitou-se a fintar os seguranças, Subir no elevador e perguntar ao senhor Victor pela doutora Maria João. Apanhou-me de surpresa. Arrumei [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=44&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Maria João Lopo de Carvalho<br />
<em>Adopta-me</em><br />
Lisbo, Oficina do Livro, 2004<br />
<em>excerto</em></p>
<p align="center">&nbsp;</p>
<p align="justify">O Jorge tinha ouvido dizer que eu conseguia resolver casos difíceis. Por isso foi procurar-me à Câmara. Não marcou nada comigo, limitou-se a fintar os seguranças, Subir no elevador e perguntar ao senhor Victor pela doutora Maria João.</p>
<p align="justify">Apanhou-me de surpresa. Arrumei os despachos a um canto da secretária, compus os óculos no nariz e fiz o ar mais calmo que consegui.</p>
<p align="justify">— Qualquer coisa serve, doutora.</p>
<p align="justify">Percebi que vinha procurar emprego. Não trazia currículo nem recomendação de ninguém. Espantou-me.</p>
<p align="justify">— Um <em>part-time</em> na Câmara Municipal de Lisboa?</p>
<p align="justify">— Qualquer coisa, doutora, para eu continuar os estudos.</p>
<p align="justify">O rapaz era alto, muito magro e tinha um ar limpo. Olhos brilhantes, cabelos curtos, vestia-se como todos os jovens de dezoito anos: duas <em>t-shirts</em>, calças impróprias, mochila às costas e uns ténis “imponíveis”.</p>
<p align="justify">— E o que é que andas a estudar, Jorge?</p>
<p align="justify">— Engenharia civil. Estou no primeiro ano do Técnico mas a Segurança Social retirou o subsídio à minha família.</p>
<p align="justify">— Aos teus pais?</p>
<p align="justify">— Não, não tenho pais — e suspira. — À minha família.</p>
<p align="justify">— Pois, à tua família — não percebi nada, a não ser o constrangimento do rapaz.</p>
<p align="justify">— E por isso precisas de trabalhar — também não é grave, pensei, eu própria trabalhei enquanto estava na faculdade. Por necessidade? Não, por gozo.</p>
<p align="justify">— Vamos ver. Não é fácil.</p>
<p align="justify">— Qualquer coisa. Não tenho medo do trabalho: contínuo, carregador, segurança.</p>
<p align="justify">— Não é fácil.</p>
<p align="justify">Que não era fácil era o que toda a gente lhe dizia. Até na pastelaria ao lado da casa onde morava, lá para os lados de Pedrouços. A ele, que sabia fazer pão e massa de bolos como ninguém. Não acreditaram nem o deixaram demonstrar. O ar enxuto do rapaz não fazia jus à sua arte. O problema estava em não poder contar tudo, nem querer. Preferia afogar a memória das coisas ou voar sobre elas, se tivesse asas e pudesse desafiar as leis da física. Mas “não é fácil” era o que ouvia por todo o lado. Para ele também não fora fácil ver a mãe fugir da casa onde morava, numa aldeia perto de Tavira, e as duas irmãs ainda de colo serem retiradas ao pai e levadas para uma instituição no Norte. Como também não fora fácil estar ao lado do pai, aos nove anos, todas as noites, para aprender a tarefa de padeiro. Tinha sono e ardiam-lhe os olhos do fumo. Mas o pai gritava-lhe:</p>
<p align="justify">— Toca a aprender Jorgito, para te fazeres um homem — isto quando estava bem disposto.</p>
<p align="justify">Não foi fácil, também. Mas nessas alturas, quando se tem nove anos, a vida é o que os pais fazem dela, um reflexo tímido de um qualquer sonho. Não foi fácil acordar todos os dias antes do amanhecer. Não foi fácil ser levado na furgoneta do pão e deixado à porta da escola. Tudo o que a menina Paula, professora na escola de Tavira, lhe ensinava era muito mais estimulante do que os tabuleiros com a massa de pão e fermento a encherem-lhe o corpo de farinha. Do que ele mais gostava era de Matemática: “Diz lá a tabuada do sete, Jorge!” E aquilo para ele era uma melodia, muito mais bonita do que multiplicar carcaças no tabuleiro, dividindo as encomendas. A sua caligrafia era também bonita a asseada, como dizia a menina Paula, que cheirava sempre a alfazema. Por isso, não foi fácil para ele levar uma reguada da menina Paula na manhã em que adormeceu a meio de uma cópia. Nessa noite tinha ajudado o pai até às cinco da manhã, porque a pastelaria encomendara o dobro do fornecimento para um baptizado.</p>
<p align="justify">O pai dissera-lhe: “Compro-te uns sapatos novos se me ajudares hoje, padeirito.” De forma que lá correu, noite fora, para satisfazer a vontade dos clientes e consolar o seu próprio desejo de uns sapatos novos. Ia receber uns ténis, de marca, com luzes! Não foi fácil, está claro, mas mais difícil ainda pareceu-lhe a reguada da menina Paula, de olhos meigos e voz de canário. “Jorge, não te quero ver a dormir na aula. Dormir é em casa, sabias?” Ele dissera que sim, mas a menina Paula, que tinha um coração grande, resolveu segui-lo depois da escola e descobriu que o Jorge não tinha tempo para dormir. Há professoras que sabem muito pouco sobre os alunos. Fazia os deveres num canto da mesa da padaria e todas as noites ajudava o pai a preparar a massa, a cozer o pão, a aviar as encomendas. Não foi fácil quando, para não desagradar à menina Paula, conseguiu pensar nos sapatos com luzes e no mundo que podia correr com eles, entre a praia e a casa, a casa e o campo de futebol, e fez todas as contas do caderno baterem certas. Nessa mesma noite, de tanto aprender, de tanto sonhar, esqueceu-se de pôr fermento em seis tabuleiros de pão, logo aqueles que se destinavam ao Café Central. Não foi fácil quando o pai descobriu e ficou com os olhos raiados de vermelho. Vermelho-cólera, que, felizmente, é o vermelho mais difícil de encontrar. A ele pareciam-lhe as labaredas quando ardera o pinhal atrás da praia. O pai prometera-lhe que lá para o final do mês viriam os sapatos com luzes. Mas já tinha passado o fim do mês e agora o que iria ser dele, depois de ter estragado a vida ao pai. “Nunca mais vais à escola, meu filho da puta”, gritara-lhe o pai, de cabeça perdida. Não foi fácil quando viu o pai crescer para ele com aquela altura toda, a barba por fazer e os olhos vermelhos de cólera. Foi nessa madrugada que se fez à estrada, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara, e foi dar a casa da menina Paula.</p>
<p align="justify">Não foi fácil.</p>
<p align="justify">Não é fácil arranjar um <em>part-time</em>, Jorge.</p>
<p align="justify">Também não foi nada fácil ir morar com uma família em Lisboa. Chamava-se família de acolhimento e foi a menina Paula que o deixou lá. A menina Paula e uma senhora da Segurança Social que o olhava com o sobrolho carregado e parecia que tinha nojo em tocar-lhe. Nesse ano conseguiu tirar o 5° e o 6° anos de uma assentada. E, como gostava tanto de estudar, no ano seguinte fez o 7°, o 8° e o 9º anos de uma só vez. Nunca mais ouviu falar do pai, nunca mais o foi visitar. Mas conseguiu uns ténis de marca com luzes, e sempre lhe disseram que tinha sido o pai que os mandara.</p>
<p align="justify">— Engenharia civil?</p>
<p align="justify">— Faltam quatro anos, doutora.</p>
<p align="justify">— Não é fácil.</p>
<p align="justify">Eu não conhecia o Jorge nem a história do Jorge padeirito. De outra forma ter-me-ia sufocado em escrúpulos neste encontro. Até ser contada, esta era apenas uma memória do Jorge estudante do Técnico, mochila às costas e um fundo de esperança ao canto dos olhos. Como tantas outras.</p>
<p align="justify">A directora da escola tem razão. Tenho de aprender a blindar-me.</p>
<p align="justify">Isso aprende-se? Onde?</p>
<p align="justify">Ainda que eu soubesse&#8230; ainda que pudesse&#8230; Nunca é fácil darmos assim de caras com a nossa infinita imperfeição. Uma coisa é certa: o padeirito vai continuar a estudar. Nem que eu me vire do avesso.</p>
<p align="justify">Fiquei a olhá-lo da janela do meu gabinete. Tinha um passo apressado e seguro.</p>
<p align="justify">Confiante.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/44/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/44/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/44/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=44&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>A liberdade é isto?</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Oct 2007 13:00:16 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A liberdade é isto? Carlos é uma das cerca de quarenta milhões de crianças que, por não terem lar, vivem abandonadas à sua sorte nas ruas das cidades latino-americanas. Muitas delas ainda têm pais, mas estes são tão pobres que não podem tomar conta dos filhos. Há cinco anos que Carlos ganha o sustento como [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=43&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><strong>A liberdade é isto?</strong></p>
<p align="center">Carlos é uma das cerca de quarenta milhões de crianças que, por não terem lar, vivem abandonadas à sua sorte nas ruas das cidades latino-americanas. Muitas delas ainda têm pais, mas estes são tão pobres que não podem tomar conta dos filhos. Há cinco anos que Carlos ganha o sustento como engraxador de sapatos. Não estava a ser fácil sobreviver.</p>
<p align="justify">
<em>O meu maior problema é dormir. Não é nada fácil encontrar um lugar seguro onde não seja incomodado. Eu não quero juntar-me a nenhum bando e começar a roubar. Isso não é futuro. Mas como não estou em nenhum bando, também não tenho ninguém que me proteja. Às vezes é horrível não ter ninguém no mundo que goste de mim. É preciso ser-se muito forte para aguentar.<br />
Há dias em que tenho a impressão de que toda a gente me detesta. Olham-me, furiosas, quando pergunto: “Quer engraxar os sapatos?” Outras insultam-me porque estou sujo. Mas já me habituei a ser insultado só por ser pobre.<br />
A vida na rua é difícil. Quando comecei a trabalhar, havia rapazes mais velhos e mais fortes que me tiravam o dinheiro todo e até me batiam. Os polícias também me bateram várias vezes. Uma vez, meteram-me num lar, mas era como estar numa prisão. Ao fim de algumas semanas, fugi.<br />
A maioria das pessoas não fala comigo quando me manda engraxar os sapatos. Lê o jornal ou olha em frente. Mas também há quem me diga: Dá-te por feliz por poderes viver em liberdade, por ninguém te dar ordens, ou coisas parecidas. Isto põe-me furioso. É liberdade ter fome? É liberdade não poder ir à escola por ter de trabalhar? É liberdade não poder aprender uma profissão e ser talvez condenado a passar a minha vida inteira na rua?</em></p>
<p align="right">
Honduras</p>
<p>Hannelore Bürstmayr<br />
<em>Grün wie die Regenzeit</em><br />
Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986<br />
<em>Tradução e adaptação</em></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/43/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/43/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/43/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=43&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Viagens contra a indiferença &#8211; Irão</title>
		<link>http://ricosepobres.wordpress.com/2007/09/29/viagens-contra-a-indiferenca-irao/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 Sep 2007 09:58:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>div. temas</dc:creator>
				<category><![CDATA[ajuda]]></category>
		<category><![CDATA[desespero]]></category>
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		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Fernando Nobre Viagens contra a indiferença Lisboa, Temas e Debates, 2007 Excertos As minhas viagens&#8230; contra a indiferença e a intolerância Porque decidi publicar agora, num único livro, algumas histórias e uns poucos diários de viagem, 16 em mais de 200 viagens, que escrevi nos últimos vinte anos? Porque entendi que talvez esses «gritos de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=42&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left">Fernando Nobre<br />
<em>Viagens contra a indiferença</em><br />
Lisboa, Temas e Debates, 2007</p>
<p><em>Excertos</em></p>
<p><strong>As minhas viagens&#8230; contra a indiferença e a intolerância</strong></p>
<p align="justify">Porque decidi publicar agora, num único livro, algumas histórias e uns poucos diários de viagem, 16 em mais de 200 viagens, que escrevi nos últimos vinte anos?<br />
Porque entendi que talvez esses «gritos de rato», como em geral os apelido, contidos nesses diários e histórias (costumo dizer que prefiro ser a cabeça de um rato ao rabo de um elefante!) e vindos do mais profundo da minha alma (embora muitos se tenham perdido na já longa caminhada da minha saga humanitária), pudessem contribuir para interpelar ou alertar algumas consciências numa altura em que estamos todos apreensivos com o amanhã das nossas liberdades e das nossas democracias num mundo tão enfermo de indiferença, intolerância e fanatismo, gerador de tanto terror, humilhação e exclusão.<br />
Por isso decidi, por ocasião dos 20 anos da AMI e dos meus 25 anos de acção humanitária, fazer um esforço de memória, e de compilação, a fim de tentar reunir alguns desses diários e histórias que encerram parcialmente as minhas memórias, assim como gritos, alertas, protestos, apelos e constatações que escrevi ou relatei, sempre assumidos como um direito e um dever de um cidadão português e do mundo que se pretende activo! Fi-lo sempre com um único objectivo: tentar ser humanamente correcto e dar, humilde mas convictamente, um contributo sincero, por vezes incómodo e politicamente incorrecto, confesso, mas sempre sustentado tentado na minha vivência e observação, no sentido da melhoria da nossa Humanidade. Agi sempre, por acções e palavras, com o intuito de combater com determinação, tenacidade, coerência e até veemência, o que considero as duas piores doenças da Humanidade: a Indiferença e a Intolerância.</p>
<p><strong>Irão — 1981</strong></p>
<p><strong>26 de Fevereiro</strong></p>
<p align="justify">6:30 — Parto triste e preocupado. Triste porque parto para uma missão de guerra: efectivamente vou para o Irão em guerra com o Iraque.</p>
<p><strong>28 de Fevereiro</strong></p>
<p align="justify">23:00 — Esta tarde às 15:00 a nossa delegação foi recebida em audiência oficial pelo Ayatollah Khomeini, líder supremo da revolução islâmica iraniana. Tal honra foi sem dúvida devida ao facto de sermos a primeira delegação ocidental a chegar ao Irão após a recente libertação dos reféns norte-americanos da Embaixada norte-americana em Teerão. De relembrar que esses reféns ficaram presos na Embaixada norte-americana em Teerão, e em outros locais, mais de um ano e que foram apenas libertados no próprio dia do fim de mandato do Presidente Cárter e da tomada de posse do Presidente Reagan. Tal facto deu-se a 20 de Janeiro de 1981, a saber pouco mais de um mês antes da nossa chegada a Teerão. Tudo isso explica o acolhimento extremamente caloroso e oficial a que tivemos direito no aeroporto, assim como as atitudes amigáveis e respeitosas com que temos sido brindados desde que chegámos a Teerão. Durante a audiência o Ayatollah Khomeini mostrou-se extremamente seráfico, silencioso, trocando poucas palavras connosco, estando mais à escuta do que falando ele próprio. Inteira-se do porquê da nossa estadia no Irão e o que planeamos fazer durante essa estadia. Foi-lhe explicado que somos uma delegação de uma instituição humanitária que, perante as dificuldades enfrentadas no Sul pelo povo iraniano em guerra com o Iraque, estávamos lá apenas como equipa médica para prestar o apoio possível. O seu olhar, sob espessas sobrancelhas, é intenso e tem o brilho e o fulgor daqueles que se crêem investidos de uma missão sobrenatural. É de certeza um místico, mas também um condutor de homens implacável. Sente-se nos seus seguidores, presentes na sala, uma deferência absoluta. A sala está toda coberta de tapetes e ele, como nós todos, está sentado sobre almofadas. Estamos perante um Califa com poder absoluto. É o Imã.<br />
A missão dos Médecins Sans Frontières de França é chefiada pelo administrador Francis Charon e é composta por outro administrador; por mim como cirurgião, pelo médico anestesista francês de Nantes, assim como por uma enfermeira e um protesista: estes dois últimos ficarão em Teerão enquanto eu e o médico anestesista partiremos para a linha da frente da guerra. Reflectindo sobre essa entrevista com o Ayatollah Khomeini, apercebo-me de que tive à minha frente um homem implacável que irá até ao fim do seu projecto fundamentalista e que não hesitará em empregar todos os meios para atingir os seus objectivos. É um homem dominado pela sua visão e por uma fé exclusiva que infelizmente ao longo da história tem produzido responsáveis de grandes chacinas e de grande sofrimento. Durante essa curta conversa que não terá durado mais de vinte minutos tenho muitas dúvidas de que o Irão pós-Xá seja menos sofredor do que foi durante a ditadura do Xá, mesmo com a sua polícia política, a então temível Savak. Nesse mesmo dia à tarde visito o Bazar de Teerão que é fabuloso de gente, de mercadorias (das frutas aos tapetes), de cores, cheiros e sons. A ambiência em Teerão é de revolução com todas as mulheres trajadas a rigor, com o seu chador negro, com fotografias do Ayatollah Khomeini por todo o lado, não só nos edifícios oficiais mas também nos hotéis e em edifícios particulares. Logo à entrada do nosso hotel está uma enorme fotografia do líder supremo da revolução islâmica. Ao fim da tarde, consegui falar com a minha mulher e o meu filho em Bruxelas, o que me deixou um pouco mais sereno. O dia acabou com um jantar no hotel com várias delegações de países islâmicos de visita a Teerão.</p>
<p><strong>14 de Março</strong></p>
<p align="justify">Só hoje escrevo porque estou cansado. Durmo num quarto cheio de mosquitos e sem casa de banho para me poder lavar. Mudámo-nos dia 2 para o hospital civil de Maha-Shar. Aí travámos conhecimento com um médico fantástico, o Dr. Rezvani, médico ortopedista iraniano da cidade santa de Mashad (cidade onde está enterrada Fatma, a filha predilecta do profeta Maomé, mulher de Ali e mãe de Hussein, estes dois últimos enterrados em Najaf e Kerbala no Iraque) e que está no Golfo Pérsico devido a uma sentença de desterro por 4 anos, após ter sido chicoteado em público. O Dr. Rezvani é o exemplo típico de vítima do arbitrário total. Viu-se afastado da sua família por um período de 4 anos só porque foi vítima de uma denúncia de um criado por ter em casa uma garrafa de whisky!! Tal constitui uma infracção gravíssima perante as leis islâmicas da nova ditadura no Irão. Com ele fizemos a visita ao hospital que tem cerca de 90 camas cirúrgicas. Existia muito trabalho e decidimos ficar. Durante a nossa estadia nesse hospital, o médico francês anestesista e eu próprio temos tido a possibilidade de intervir muitas vezes e a possibilidade de falarmos com os iranianos e de nos interrogarmos sobre a estupidez da guerra em curso. Todos sabem que o Iraque está a ser apoiado, equipado e aconselhado por todas as potências ocidentais, nomeadamente a França, a Alemanha, a Bélgica, os EUA, porque para o Ocidente é fundamental que a revolução islâmica (xiita) em curso no Irão não se alastre a todo o Médio Oriente e não só! Pese embora o regime ditatorial do Sr. Saddam Hussein ter tendências expansionistas (tem a intenção de ocupar toda a zona petrolífera do Irão e a zona vital do Chat-el-Arab, delta dos rios Tigre e Eufrates da Babilónia, que desagua no golfo Pérsico), beneficia do apoio militar maciço do Ocidente! Daí que perante duas ditaduras, qual delas a mais hedionda e facínora, o Ocidente tenha optado por apoiar a ditadura do Sr. Saddam Hussein&#8230; Passo os meus dias no bloco operatório a retirar estilhaços de bombas e a operar queimaduras, fracturas&#8230; enfim o habitual numa missão de guerra onde a cirurgia tem de ser, infelizmente, uma cirurgia expedita e pouco conservadora, na medida em que se trata de salvar o máximo de vidas e de operar o máximo de doentes. Nessa situação de cirurgia expedita, as amputações são o gesto salvador para muitas vidas. Quando não estou a operar, visito as enfermarias. De realçar: é proibido ao médico homem tocar a pele de uma doente. Para examinar uma senhora temos que o fazer permanecendo ela vestida (de referir que as camadas de roupa são algumas); e se, como diz o livrinho verde do Ayatollah Khomeini, o médico tiver de examinar a senhora do ponto de vista ginecológico, só o poderá fazer olhando a região proibida (!) por intermédio de um espelho ou de uma superfície de água! Muito fácil! É preciso ter pontaria! De salientar também o sofrimento das crianças e sobretudo a morte destas que me parece completamente intolerável e inaceitável e particularmente dolorosa. Refiro, só como exemplo, o caso de uma menina de 8 anos vítima de um bombardeamento que ficou queimada em cerca de 95 %. Quando no-la trouxeram de imediato soube que só poderia haver um desfecho: a morte rápida. Já tinha a experiência da Unidade de Queimados do Hospital Universitário de Bruxelas&#8230; Perante esse corpo infantil, inchando rapidamente, que deitámos por cima de um lençol limpinho, o único gesto que pude fazer foi pôr a pomada de zinco, que trouxera de Paris para mim próprio caso tivesse alguma queimadura localizada, espalhando-a pela cara da menina embora sabendo bem da inutilidade do meu gesto. Pareceu-me impossível ficar impávido a olhar para aquela criança morrer, o que veio a acontecer poucas horas depois. O meu gesto foi um gesto gratuito mas para mim teve muito significado. Importa referir também que no hospital de Maha-Shar todas as salas, incluindo as salas de internamento, os blocos operatórios e os corredores estão profusamente decorados com retratos do Ayatollah Khomeini e de muitos outros ayatollahs e mullahs que me fazem pensar que estamos num local de culto, e não num hospital. Tal situação choca-me porque penso que um hospital não é o local propício para tal demonstração de culto de personalidades. Todos os dias, perante o número de feridos que são transferidos de Abadan e de outras linhas da frente, interrogamo-nos cada vez mais sobre o sentido desta chacina de jovens que se vai perpetuando numa guerra que não faz sentido entre dois povos que se reclamam de Alá. Só por razões de poder e de geoestratégia é que se entende tal chacina. Já nem falo dos milhares de amputados que por aqui andam! Penso nos milhares de jovens que explodem nos campos de minas entre os dois países e que são verdadeiramente carne para minas ou carne para canhão! Interrogo-me sobre o bom senso dos governantes e o que os motiva para tamanha insensibilidade. A juventude do povo iraniano, mas presumo que aconteça o mesmo do lado iraquiano, está a ser dizimada por uma guerra com contornos ideológicos e religiosos e com objectivos económicos evidentes que são o controlo das jazidas de petróleo do Golfo Pérsico. Não deixo também de me interrogar porque o Ocidente apoia o ditador Saddam Hussein, cujo curriculum de atrocidades já é extenso. Durante esta minha estadia no golfo Pérsico já deu para perceber o medo latente que as pessoas têm aqui no Irão: medo da denúncia, medo da repressão, medo da prisão, medo do exílio e medo da morte! As pessoas com formação têm a perfeita noção de que vivem num regime ditatorial, de que estão permanentemente vigiadas e que o mínimo desvio pode custar-lhes a liberdade ou a própria vida. Aqui os Direitos do Homem e a liberdade individual são um mito. A maioria dos letrados está, pois, em liberdade condicional.</p>
<p><strong>15 de Março</strong></p>
<p align="justify">Perante a necessidade de precavermos o nosso regresso de Teerão para Paris, e já que não nos é garantido transporte aéreo militar, o único meio aéreo que existe, do golfo Pérsico para Teerão!, deslocámo-nos à vila mais próxima de Maha-Shar, Sarbandard, a fim de podermos comprar bilhetes para um autocarro que nos conduzirá até Teerão. Vou deixar o hospital de Maha-Shar sem saudades, a não ser do Dr. Rezvani, o ortopedista exilado, e do Dr. Bodaghi, médico pediatra particularmente simpático como o seu colega. De todos os outros devo dizer que parto sem saudades, na medida em que se percebe que, ou por razões religiosas ou por medo, é quase impossível dialogar com eles. Eles desconfiam de nós, como ocidentais, infiéis e impuros que somos. No livrinho verde de Khomeini estamos entre o cão e o porco! Estou também cansado e farto de tanto sofrimento e morte.</p>
<p><strong>18 de Março</strong></p>
<p align="justify">Partida de Maha-Shar em direcção a Sarbandard onde às 8:30 apanhámos um autocarro em direcção a Teerão. A viagem demora perto de vinte e quatro horas. Deixei o golfo Pérsico, região de grandes feitos históricos portugueses. Aqui toda a gente — enfim, a letrada! — sabe quem foi Afonso de Albuquerque. Quando chegarmos a Teerão tenho a intenção de visitar uma fábrica de próteses para amputados. No autocarro «tradicional» com destino a Teerão, sentámo-nos, o anestesista e eu, nos dois primeiros lugares à frente do lado direito. À nossa esquerda sentou-se um mullah. Tive o pressentimento de que os aborrecimentos não tardariam. Efectivamente, um pouco mais adiante, durante a viagem fiz uma fotografia de uma cordilheira com neve, o Zagros, mal sabendo que cerca de três a quatro quilómetros mais à frente existia um campo militar à direita na estrada. A partir desse momento foi o inferno. O mullah começou a acusar-nos de sermos espiões e que a fotografia tirada por mim pretendia indicar a existência do campo militar e que, como espiões que éramos, seríamos em Teerão entregues aos pasdarans, a milícia política, sem rei nem roque, do novo regime. De referir que os pasdarans, «estudantes islâmicos», são os guardiões do templo, celerados e crápulas com total cobertura do regime. Por mais que insistíssemos que tínhamos estado a trabalhar como médicos humanitários em Maha-Shar no hospital Mossadeh, nome de um anterior primeiro-ministro que quis nacionalizar o petróleo iraniano, deposto pelos americanos, os ingleses e as petrolíferas no início da década de 50, não conseguimos demover o maldito mullah da ideia de que éramos espiões! Seríamos tratados como tal! Perante a sua insistência, tive de lhe entregar o rolo da máquina fotográfica, ficando por isso sem recordações da minha missão no golfo Pérsico; e ele só não nos entregou na polícia de Ahvaz porque lhe disse que tínhamos vindo para o Irão a pedido de Ayatollah Khomeini com o qual tínhamos tido uma entrevista em Teerão. Penso que a partir daí começou a reflectir sobre o seu próprio destino&#8230; Quando passei por Ahvaz e Dezful, pese embora o fundamentalista mullah, pensei em Alexandre, o Grande, que aí foi generoso e magnânimo com a viúva de Dario, o imperador persa derrotado (e assassinado pelos seus próprios generais vira-casacas e oportunistas que Alexandre, e bem!, mandará executar por felonia&#8230;) e se casou em Dezful com uma das filhas do defunto imperador. Essas duas vilas foram bastante atingidas pela actual guerra.<br />
Durante a viagem, passei pela cidade santa de Qom e fiquei com uma imagem gravada para sempre na minha retina: era noite e, iluminada pela lua e as estrelas, recortava-se no céu a imagem de uma bela mesquita com o seu esbelto minarete! Que linda imagem para as mil e uma noites&#8230; numa Bagdad de outros tempos&#8230; Até Teerão, durante toda a viagem, nunca ninguém nos dirigiu a palavra: quando o autocarro parava em localidades para podermos beber um chá, tinha a nítida impressão de que, a partir do momento do ataque cerrado do mullah, tínhamos adquirido a peste! Felizmente, à chegada a Teerão o dito mullah decidiu não criar mais entraves, o que nos permitiu recuperar as nossas malas do tejadilho do autocarro e irmos embora&#8230;</p>
<p><strong>30 de Março</strong></p>
<p align="justify">Data da partida de Teerão para Paris. Devo dizer que senti uma sensação de liberdade muito profunda quando o avião descolou porque tinha a nítida impressão de que deixava um país com um regime repressivo, violento, e uma visão fundamentalista não só da religião mas também do modo de vida. Para mim correspondia a sair de uma prisão. Efectivamente, o Irão que acabava de conhecer mais não era do que uma enorme prisão para muitos iranianos e um ponto de interrogação para muitos outros. Estou convicto também de que a guerra Irão-Iraque é inútil, violentíssima e que provocará até ao fim milhares e milhares de mortos devido à vontade assassina e hegemónica de dois déspotas, o Sr. Saddam Hussein no Iraque e o Ayatollah Khomeini no Irão. Possa o futuro contradizer-me.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/42/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/42/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/42/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=42&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Viagens contra a indiferença &#8211; Nepal</title>
		<link>http://ricosepobres.wordpress.com/2007/09/29/viagens-contra-a-indiferenca-nepal/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 Sep 2007 09:55:00 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Fernando Nobre Viagens contra a indiferença Lisboa, Temas e Debates, 2007 Excertos As minhas viagens&#8230; contra a indiferença e a intolerância Porque decidi publicar agora, num único livro, algumas histórias e uns poucos diários de viagem, 16 em mais de 200 viagens, que escrevi nos últimos vinte anos? Porque entendi que talvez esses «gritos de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=41&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left">Fernando Nobre<br />
<em>Viagens contra a indiferença</em><br />
Lisboa, Temas e Debates, 2007</p>
<p><em>Excertos</em></p>
<p><strong>As minhas viagens&#8230; contra a indiferença e a intolerância</strong></p>
<p align="justify">Porque decidi publicar agora, num único livro, algumas histórias e uns poucos diários de viagem, 16 em mais de 200 viagens, que escrevi nos últimos vinte anos?<br />
Porque entendi que talvez esses «gritos de rato», como em geral os apelido, contidos nesses diários e histórias (costumo dizer que prefiro ser a cabeça de um rato ao rabo de um elefante!) e vindos do mais profundo da minha alma (embora muitos se tenham perdido na já longa caminhada da minha saga humanitária), pudessem contribuir para interpelar ou alertar algumas consciências numa altura em que estamos todos apreensivos com o amanhã das nossas liberdades e das nossas democracias num mundo tão enfermo de indiferença, intolerância e fanatismo, gerador de tanto terror, humilhação e exclusão.<br />
Por isso decidi, por ocasião dos 20 anos da AMI e dos meus 25 anos de acção humanitária, fazer um esforço de memória, e de compilação, a fim de tentar reunir alguns desses diários e histórias que encerram parcialmente as minhas memórias, assim como gritos, alertas, protestos, apelos e constatações que escrevi ou relatei, sempre assumidos como um direito e um dever de um cidadão português e do mundo que se pretende activo! Fi-lo sempre com um único objectivo: tentar ser humanamente correcto e dar, humilde mas convictamente, um contributo sincero, por vezes incómodo e politicamente incorrecto, confesso, mas sempre sustentado tentado na minha vivência e observação, no sentido da melhoria da nossa Humanidade. Agi sempre, por acções e palavras, com o intuito de combater com determinação, tenacidade, coerência e até veemência, o que considero as duas piores doenças da Humanidade: a Indiferença e a Intolerância.</p>
<p><strong>Nepal</strong> —1995</p>
<p align="justify">2 de Dezembro</p>
<p align="justify">8:30 — Estão 7°C e chego a Deli, ao Aeroporto Internacional Indira Gandhi, vindo de Paris pela Air Índia, às 6:30. Escrevo estas linhas enquanto espero pelo avião da Indian Airlines para Katmandu. O táxi custa-me 200 rupias e demora dez minutos. Na Índia os aeroportos são limpos e bem organizados. Fora do aeroporto, embora muito longe do que já vi em Calcutá ou em Bombaim, estão as vacas e uma explosão demográfica assustadora. Saí de Lisboa ontem às 10.15. Esta é só mais uma viagem, como muitas outras, que faço há pelo menos quinze anos. Com estas correrias acabo por estar muitas vezes longe das pessoas que mais amo. Penso cada vez mais nas palavras do grande mágico tibetano Milarepa que já no século XI dizia: «Foges sempre para outro lado mas o teu desejo de liberdade é ilusão. Fica pois aqui para destruíres as ilusões do teu espírito.» Será que algum dia, antes que perca o carinho e o amor das pessoas que tanto amo, terei a inteligência de obedecer a esse sábio mas, quanto a mim, frustrante pensamento? Ou continuarei a correr na ilusão de querer participar numa pequena melhoria deste nosso tão conturbado mundo? Será que só entenderei, quando os meus filhos que tanto amo me atirarem à cara as minhas eternas ausências? Desde que tenho consciência de ser gente que quis ser médico para ajudar os outros. Sempre me questionei sobre mim próprio e o mundo, perguntas existenciais do género «quem sou», «para onde vou». Que sentido terá a vida para não querer descansar? Continuo à procura das respostas para enfim entender o sentido da minha vida. Talvez esteja a ser ambicioso, talvez esteja à procura de uma ilusão, mas não consigo parar de me interrogar, de procurar. Tenho perfeita consciência de que, ao tentar ajudar os outros, ao tentar compreender porque aqui ando, não tenho dado o apoio e a presença suficientes às pessoas que mais amo, que são sem dúvida nenhuma os meus filhos, a minha mulher, a minha mãe e os meus irmãos. Devo, indiscutivelmente, à minha mãe grande parte daquilo que sou, pois soube incutir-me, com o meu pai, as noções de ética, de honra, e demonstrar-me o que é o verdadeiro amor. Deus queira que a vista que tenho dos Himalaias me ajude nesta incessante procura do entendimento que me faz correr. Há dois anos, quando passei por Darjeeling (de onde vi e fotografei a segunda montanha mais alta do mundo, 8598 m, o Kangchenjunga) e por Gangtok, no antigo reino do Sikkim anexado pela Índia nos anos 70, senti mais uma vez (a primeira foi no Sara, no Chade em 1981) que é urgente que os povos aceitem a sua maravilhosa diversidade: os tubus do Chade, como os gurkhas do Nepal, os fulas da Guiné ou os chechenos são indispensáveis para o planeta Terra, com todos os seus povos em harmonia, embora grãos invisíveis, no equilíbrio do Grande Universo. Daqui a catorze dias farei 44 anos e estarei em Bagdad, a cidade, tal como Damasco, das mil e uma noites, mas também a cidade dos mil sofrimentos. Após mais de quinze anos de peregrinações humanitárias pelos quatro cantos do mundo, sinto que está a chegar o momento de lançar o meu grito de revolta, de inconformismo contra tudo de mal que tenho visto e vivido. Não tolero mais ver tanta miséria ao lado de tanta riqueza, de tanta ostentação e de tanta indiferença, que mata mais certeira e em maior número do que uma rajada de metralhadora. Estamos num mundo, como já referi algures, em que se quer fazer do capitalismo feroz uma religião e da miséria e da pobreza pecados mortais. Estou cansado: recuso-me a tal desvario. Sempre tive a impressão e a sensação de que não teria o tempo de vida suficiente para concretizar o meu sonho: uma obra que se impusesse aos homens como um dos símbolos do entendimento e da aproximação de todos os povos.<br />
À minha chegada a Katmandu, no aeroporto tive direito a um grande colar de flores como sempre me aconteceu na Índia (fui lá inúmeras vezes). Só este povo para ter tal atenção. Hoje à noite levaram-me a jantar num restaurante chinês! É verdade que este país independente (até quando? Não lhe vá acontecer o mesmo que ao reino de Sikkim anexado pela Índia em 1975) está entalado entre dois gigantes: a China (que anexou o Tibete do Dalai Lama) e a Índia. Tenho aproveitado para ler o máximo sobre o Nepal, os Himalaias e os seus reinos. Quanto mais viajo mais me interrogo e mais aprendo com os outros povos. E mais me dou conta da minha pequenez e da minha ignorância. Afinal somos todos uns analfabetos. Os doutores e os professores doutores, com toda a sua ciência e suficiência, metidos em certos meios como o Sara, a floresta equatorial ou os Himalaias, não conseguiriam sobreviver uma semana. Nesses meios hostis para nós, os tubus, os pigmeus e os cherpas são, sem dúvida nenhuma, os nossos professores e protectores. Para mim, o mundo é uma verdadeira Aldeia Global. Deixou de ser pura retórica: transformou-se, para mim, numa realidade bem sentida e vivida. Tenho tentado passar estes ensinamentos aos meus filhos. Espero ter tempo um dia para lhes contar e transmitir tudo o que tenho visto.<br />
O Nepal, país em vias de desenvolvimento, está a braços com uma explosão demográfica e a consequente desflorestação. Como para muitos outros países pobres de Terra, receio o que poderá vir a acontecer nos próximos 20 a 30 anos. A tomada de consciência dessa realidade já devia ter sido feita pelos seus governantes a norte e a sul. Muitas vezes cínicos, hipócritas, demagogos, corruptos, assassinos, ladrões, incompetentes e cegos&#8230; Não há mais tempo a perder pois as questões de fundo (ambientais, alimentares, de segurança&#8230;) já são gravíssimas. É preciso juntar todos os homens e mulheres de boa vontade e reagir depressa, antes que dramas insolúveis apareçam em catadupa e nos obriguem a comportar-nos como animais!</p>
<p align="justify"><strong>3 de Dezembro</strong></p>
<p align="justify">19:00 – No escritório minúsculo da ONG nepalesa, que fica numa agência de viagens, passámos três horas a falar dos projectos. Em primeiro lugar, a AMI financiará um projecto de sensibilização sobre a SIDA, que no Nepal é um problema extremamente sério. Está visto que a SIDA é um problema mundial. Nem os Himalaias são um obstáculo a esta doença que nos próximos vinte anos tomará, perante a indiferença das potências dominantes, as proporções de uma nova Peste Negra, sobretudo em África. Em segundo lugar, financiaremos um programa de apoio ao combate contra a droga, outro flagelo que também anda à solta. Com tanta clemência para com os assassinos traficantes de droga, que realizam lucros fabulosos com esse veneno, que tantas vidas jovens destroem e incapacitam, aonde iremos parar? A tolerância, a bondade e o diálogo não nos devem impedir de actuar com energia e determinação quando se trata de combater os responsáveis por esse drama mundial.</p>
<p><strong>5 de Dezembro</strong></p>
<p align="justify">00:35 — Ando com insónias. Leio de tudo um pouco. Desde a pandemia da SIDA ao problema da Europa com a imigração proveniente dos países da margem sul do Mediterrâneo, assim como sobre gestão de empresas (ou instituições): na AMI teremos de estar atentos permanentemente para que:<br />
1. Nunca esqueçamos a razão de ser da AMI: a sua filosofia humanística e altruísta nunca poderá ser desvirtuada.<br />
2. Evitemos uma eventual inadaptação entre a instituição e os seus objectivos. Temos de sensibilizar adequadamente o grande público assim como outras fontes vivas da nossa sociedade (Governo e empresas) para que a preocupação humanista pelos mais desfavorecidos, estejam eles onde estiverem, se mantenha.<br />
3. Não nos deixemos instrumentalizar pelo governo, ou por instâncias internacionais, como até hoje conseguimos.<br />
4. Consigamos manter sempre uma liquidez suficiente para que em caso de acidente de percurso (por ex: falta de financiamento) não tenhamos a corda na garganta e possamos reagir com tempo e calma.<br />
19:00 — Com o casal Gautam (ela com um lindo sari amarelo-queimado) fui visitar o templo de Swayambhunath a cerca de 5 km de Katmandu. Este templo budista, o segundo em ordem de importância, após Baudhanath, para os budistas do Nepal é muito bonito. Mesmo ao lado está um lindo templo hindu. Muitos monges budistas, muitos cheiros, muitas cores, muitos macacos e&#8230; muito artesanato! É impressionante a convivência entre as religiões (budismo e hinduísmo) no Nepal: há uma nítida conivência e tolerância entre os crentes das duas maiores religiões orientais. As crenças orientais dão-nos uma lição de tolerância. Quando vejo o que se está a passar com as três grandes crenças monoteístas (as religiões do Livro), judaísmo, cristianismo e islamismo, sinto-me envergonhado&#8230; Será que ainda estamos nas Cruzadas? No entanto, já deveríamos ter evoluído desde os séculos XI e XII! Para quando o fim dos dramas da Palestina, Irlanda do Norte, Bósnia, Argélia, do Irão, do Sudão… e talvez, em breve, do Egipto, de Marrocos, da Arábia Saudita, do Paquistão… Ética,, tolerância, convivência: eis a receita que o Mundo precisa no fim do séc XX.<br />
Voltando ao Nepal, estou impressionado pela noções de beleza, colorido e estética deste povo, assim como pela altíssima qualidade que os seus artistas têm no trabalho da talha, da madeira, da escultura da pedra e de variados metais. Que fabulosos arquitectos e artistas. Como a humanidade é rica e como o homem é fabuloso quando pensa e age para o belo e o seu semelhante. Pudesse ser sempre assim!</p>
<p><strong>8 de Dezembro</strong></p>
<p align="justify">16:00 — Descolo de Katmandu em direcção a Deli, na Índia.<br />
16:05 — Simplesmente fabuloso. Durante dez minutos voamos ao longo de toda a cordilheira dos Himalaias. Pude ter uma visão completa espectacular. Sentado no lugar 8 J, foi só olhar pela janelinha do avião e admirar. Até houve um OH de espanto em todo o avião. Visibilidade perfeita, manto de nuvens pelos 5000 metros. Então pude observar o rei Evereste e toda a sua corte. Após sobrevoar o Cáucaso entre Baku e Tbilissi só me restava ver esta beleza. Vi o Evereste. Um dia talvez, embora duvide muito de que alguma vez o consiga, gostaria de o cumprimentar pessoalmente, com muito respeito!<br />
Depois de tão espectacular vista e destas divagações, optei por ficar calado. Acho que quem teve a extraordinária sorte de poder admirar os Himalaias, pese embora de um avião, tem de remeter-se ao silêncio. É isso que decidi fazer até ao fim da viagem. Podia falar-vos de tantas outras missões que fiz no Líbano, na Guiné, no Sudão&#8230; O diário do Nepal acaba aqui. Não vos falarei da princesa Druza Amar que conheci em Beirute em 1982, não vos falarei dos sikhs e do seu templo de ouro no Punjab, não vos falarei do jornalista iraniano que sob risco de vida um dia encontrou-se comigo no Irão levando debaixo da sua capa duas garrafas de vodka&#8230; Tenho de continuar a crescer pois quanto mais aprendo mais me interrogo. Resta-me tentar fazer o meu melhor, amar com toda a força os meus e tentar pôr a minha gota de orvalho nesta terra por vezes tão seca de egoísmo, de inveja, de ambição, de indiferença, de intolerância, de maldade. É tudo, é pouco, mas é por isso que me norteio, é isso que com muito amor gostaria de poder transmitir aos meus filhos. Depois a caminhada até ao cimo da montanha, que durará até ao último sopro da minha vida, será só minha. Eles também deverão fazer a sua própria caminhada e oxalá um dia possam admirar o Evereste como eu pude fazê-lo.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/41/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/41/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/41/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=41&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Palestina, 29 de Julho</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Sep 2007 07:18:35 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[As minhas viagens… contra a indiferença e a intolerância Palestina — 1996 Segunda-feira, 29 de Julho 23:00 — Acabo de chegar ao aeroporto do Cairo, vindo de Lisboa, via Roma. À minha espera no aeroporto estão dois funcionários da Embaixada palestiniana no Cairo. Sou conduzido ao Hotel Baron, nome do antigo barão Empain, no bairro [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=40&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>As minhas viagens… contra a indiferença e a intolerância</strong></p>
<p>Palestina — 1996</p>
<p>Segunda-feira, 29 de Julho</p>
<p>23:00 — Acabo de chegar ao aeroporto do Cairo, vindo de Lisboa, via Roma. À minha espera no aeroporto estão dois funcionários da Embaixada palestiniana no Cairo. Sou conduzido ao Hotel Baron, nome do antigo barão Empain, no bairro de Heliopolis, nos arredores do Cairo. Após ter telefonado para a minha irmã Leonor, sou informado pelo embaixador da Palestina em Portugal, o Sr. Issam Besseisso, que amanhã me irão buscar ao hotel às 7:30 para visitarmos o hospital palestiniano do Cairo e depois iremos directamente para a Faixa de Gaza, na Palestina, a uma distância de 380 quilómetros. Do hotel onde estou vê-se do outro lado da rua o palácio, hoje parcialmente abandonado, que o Senhor Empain, feito barão pelo rei belga Leopoldo II, mandou construir no início do século XX no deserto que era então Heliopolis. Grandezas e decadências&#8230;</p>
<p>Segue: <a href="http://ricosepobres.wordpress.com/2007/09/28/palestina-30-de-julho/">Palestina &#8211; 30 de Julho</a></p>
<p><span style="font-size:95%;"></span><span style="font-size:95%;"></span><span style="font-size:95%;"></span><span style="font-size:95%;"></p>
<p align="justify">Fernando Nobre<br />
<em>Viagens contra a indiferença</em><br />
Lisboa, Temas e Debates, 2007</p>
<p><em>Excertos</em></p>
<p></span></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/40/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/40/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/40/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/40/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=40&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Palestina, 30 de Julho</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Sep 2007 07:14:15 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[As minhas viagens… contra a indiferença e a intolerância Anterior: Palestina &#8211; 29 de Julho 30 de Julho 7:30 — Acompanhado pelo irmão do presidente da autoridade palestiniana, o Sr. Arafat, e acompanhado também pelo delegado da Palestina em Portugal, faço uma rápida vista ao hospital palestiniano no Cairo. De referir que já me tinha [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=39&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>As minhas viagens… contra a indiferença e a intolerância</strong></p>
<p>Anterior: <a href="http://ricosepobres.wordpress.com/2007/09/28/palestina-29-de-julho/">Palestina &#8211; 29 de Julho</a></p>
<p align="left">30 de Julho</p>
<p align="justify">7:30 — Acompanhado pelo irmão do presidente da autoridade palestiniana, o Sr. Arafat, e acompanhado também pelo delegado da Palestina em Portugal, faço uma rápida vista ao hospital palestiniano no Cairo. De referir que já me tinha encontrado com o Sr. Arafat, Presidente do Crescente Vermelho palestiniano em 1982, em Beirute Ocidental, na altura «sector palestiniano» cercado pelas tropas israelitas, quando por essa ocasião chefiei uma equipa cirúrgica dos Médicos Sem Fronteiras de França. O hospital palestiniano no Cairo começou a ser construído em 1973, após o famoso Setembro negro na Jordânia, e começou a funcionar em 1977. Tem 5 pisos tipo prédio de habitação, 200 camas e 30 médicos. É um hospital pobre, mas limpo, que me faz lembrar os hospitais que conheci na Geórgia. Depois da visita ao hospital, iniciamos a marcha em direcção ao canal do Suez. De referir que a condução no Cairo é completamente caótica e de uma confusão total. Toda a gente circula na faixa da esquerda e por isso ultrapassa-se pela direita utilizando a faixa oposta, mesmo que para isso se transponha um duplo traço contínuo. É uma condução feita de buzinadelas, onde os semáforos não são minimamente respeitados, mesmo à frente dos polícias. No Cairo só tive tempo de ver de relance as pirâmides. Já tinha estado nesta cidade em 1981 vindo de Cartum.</p>
<p align="justify">10:00 — Após muitos palmeirais de tâmaras e muito deserto e camelos, chegámos ao canal do Suez, realizado pelo corajoso e visionário Ferdinand Lesseps. A viagem faz-se em duas viaturas, deslocando-se na primeira o irmão do presidente da autoridade palestiniana, acompanhado por uma delegação alemã do Ministério da Defesa constituída por três homens e uma senhora. Na segunda viatura, um jipe Nissan, sigo eu, um alemão e o delegado da autoridade palestiniana em Portugal. A travessia do canal do Suez durou pouco mais de cinco minutos, numa espécie de jangada que me fez pensar na jangada do rio Corubal na Guiné-Bissau. Já no Sinai tivemos de parar num cruzamento, pois pela direita apareceu uma comitiva de dez carros, onde vinha o presidente da autoridade palestiniana que tinha aterrado algures no Sinai e que, segundo o irmão, vinha de uma visita ao Iémen. A partir daí, os dois carros da nossa comitiva seguiram a alta velocidade a comitiva do presidente Arafat e nunca mais parámos até à fronteira entre o Egipto e a Faixa de Gaza. A fronteira entre o Sinai e a Faixa de Gaza é, efectivamente e de facto, uma fronteira egípcio-israelita. Os palestinianos não controlam minimamente essa fronteira. Lembro-me de que para atravessar o posto de controlo israelita tive de tirar o relógio, o cinto e os sapatos, pois a máquina detectora de metais não parava de apitar às minhas sucessivas tentativas de passagem. A fronteira está muito bem guardada pelas autoridades israelitas, está cheia de arames farpados e de obstáculos, obrigando as viaturas a andar em ziguezagues, o que me fez pensar na antiga fronteira de Berlim ou na fronteira entre o Iraque e a Jordânia que atravessei o ano passado. Fronteiras de medo e de exclusão.</p>
<p align="justify">A minha primeira impressão da Faixa de Gaza é péssima. Estamos numa região extremamente pobre que me faz pensar em muitas outras por mim conhecidas em África. A Faixa de Gaza é suja, arenosa, e as casas estão todas com tijolo e cimento à vista e com os pisos por acabar. Sente-se uma sensação de asfixia, tal é a densidade populacional e a desordem que reinam neste território. Visitamos vários campos de refugiados, onde residem os mais frágeis e pobres entre os já excluídos palestinianos de Gaza. Gaza é um gueto e esses campos são os bairros mais miseráveis e resistentes do gueto. Pensei, com as devidas diferenças, no gueto de Varsóvia, na MILA 18, no império romano, nos resistentes judeus de Massada. E pensar que há muitas pessoas e gerações nesses campos desde 1947, no seguimento da aceleração do êxodo palestiniano que se deu após o massacre da aldeia de Deir Yassim perpetrado pelo movimento terrorista do Sr. Menahem Begin, o Irgoun. Desses campos de refugiados só poderá nascer terror e terroristas&#8230; infelizmente. De seguida visitámos um hospital em construção e depois instalámo-nos no Hotel Cliff em Gaza. Constata-se a existência na Faixa de Gaza de muitos colonatos israelitas, fáceis de identificar pela existência de terrenos bem cultivados, pela presença de estufas; fico a saber que até cultivam bonsai que são exportados. Esses colonatos israelitas são abastecidos pelas tropas de Israel que têm acesso a eles por determinadas estradas, verdadeira teia de aranha que estrangula e asfixia Gaza.</p>
<p align="justify">Assim sendo, o Estado da Autoridade Palestiniana continuará a ser um «estado minúsculo», um bantustão impossível de gerir, também vítima da corrupção de certos líderes do topo, pobre e com um futuro incerto. Fico impressionado ao constatar que aqui já se vêem muitas mulheres com o chador negro. O futuro dos cristãos palestinianos, que representam hoje cerca de 20 % da população palestiniana, está altamente comprometido por um fundamentalismo islâmico que se reforçará se o conflito israelo-palestiniano não tiver uma solução rápida e justa. Não posso deixar de pensar no meu amigo palestiniano cristão, cujo nome não referirei, mas que numa conversa num país do golfo Pérsico me disse que o seu futuro naquela região estava condenado porque era cristão. Eu acho que efectivamente ele tem razão, a não ser que rapidamente o conflito desgastante, injusto e massacrante em curso venha a ter um fim rápido para bem do futuro dos israelitas e dos palestinianos!</p>
<p align="justify">Na Faixa de Gaza vêem-se também muitas mesquitas com os seus minaretes, hoje difundindo mensagens de resistência legítima e de combate. O deserto do Sinai, que atravessei hoje, está carregado de histórias, de chacinas, de cenas bíblicas. Como não pensar nos hititas, nos egípcios, nos israelitas, em Moisés. Por mais que pense, não consigo entender como é que povos que se referem tantas vezes à história e a Deus podem continuar hoje exactamente no mesmo caminho de matança e de intolerância. E algo que me ultrapassa por completo. Não se pode atravessar esta região do mundo sem se sentir interpelado por Deus, pelos seus profetas e pelo Homem.</p>
<p>Segue: <a href="http://ricosepobres.wordpress.com/2007/09/28/palestina-31-de-julho/">Palestina &#8211; 31 de Julho</a></p>
<p>Fernando Nobre<br />
<em>Viagens contra a indiferença</em><br />
Lisboa, Temas e Debates, 2007</p>
<p>Excertos</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/ricosepobres.wordpress.com/39/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/ricosepobres.wordpress.com/39/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ricosepobres.wordpress.com/39/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ricosepobres.wordpress.com/39/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ricosepobres.wordpress.com&amp;blog=1404603&amp;post=39&amp;subd=ricosepobres&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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